quinta-feira, 4 de outubro de 2018
terça-feira, 2 de outubro de 2018
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
Miúdos pelos Direitos Humanos
Concurso de Desenho sobre Direitos Humanos
Posso desenhar sobre o quê?
Esta competição propõe 3 temas para que te possas inspirar. Escolhe um e começa a desenhar!
1. Pinta ou desenha um Direito Humano que sintas que deva ser defendido. Escolhe um dos 30 artigos e ilustra-o criativamente.
2. Pinta ou desenha alguém que admires pela defesa ou promoção dos Direitos Humanos.
3. Pinta ou desenha uma situação em que mostres como tu podes defender um direito humano. Existem muitas maneiras simples de defender os Direitos Humanos: apontar a intolerância, expressar a tua opinião, participar numa marcha, ajudar alguém em necessidade. Mostra ao mundo como fazes a diferença!
Submissão de trabalhos
Primeiro deves enviar uma imagem, fotografia ou digitalização do teu desenho, não o trabalho original. Podes submeter o desenho neste website (http://kids4humanrights.org/Submit) ou enviá-lo para este endereço eletrónico: kids4humanrights@gabarron.org. até ao dia 31 de outubro de 2018.
Se fores um dos finalistas então deverás enviar o teu desenho para a Fundação Gabarron, na altura receberás mais instruções.
Ver mais informações aqui: https://www.unric.org/pt/concursos-e-campanhas/32448-competicao-de-desenho-miudos-pelos-direitos-humanos-kids4humanrights
sexta-feira, 21 de setembro de 2018
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
Cidadania e Desenvolvimento - Direitos Humanos
Materiais de apoio ao desenvolvimento do tema "Os Direitos Humanos" disponíveis na Biblioteca:
Manuais de apoio ao professor:
Folhetos:
DVD:
Oferta do Professor Eduardo Azevedo.
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
2018-19
A Biblioteca da Escola S/3 S. Pedro, deseja a toda a comunidade educativa um excelente ano letivo 2018-19
sexta-feira, 3 de agosto de 2018
Homo Deus História Breve do Amanhã
Um elixir excessivamente ansioso
Até ao séc.XX, 1/3 da população não
chegava à idade adulta devido a uma doença; de resto, a gripe espanhola,
mataria mais pessoas - 50 a 100 milhões, do que a Primeira Guerra Mundial (40
milhões). Historicamente, a peste negra (inicia-se em 1330)
matara entre 75 e 200 milhões de pessoas, mas não fora um acontecimento
excepcional nem sequer a pior peste da história. 1979 marca o ano da 1ª
epidemia que a humanidade conseguiu eliminar da face da Terra, com a
erradicação da varíola. Nas sociedades agrícolas, a guerra, por sua vez,
causara o desaparecimento de 15% da população; no século XX, foi responsável
por 5% das mortes, e no séc.XXI, até ao momento, por 1%. Assim, em 2012 morreu
mais gente por diabetes e suicídio do que por via da guerra. Neste sentido,
pode dizer-se que "o açúcar é agora mais perigoso do que a pólvora"
(p.26), ou, noutra formulação possível, "para o norte-americano, ou
europeu médio, a Coca-Cola representa uma ameaça maior do que
a Al Qaeda" (p.29). Repare-se que, em 2010, morreram 7697 pessoas fruto de
terrorismo, no mundo, a maioria das vítimas vivendo em países em vias
de desenvolvimento; mas, ao mesmo tempo, morreram 3 milhões de pessoas em
virtude da obesidade e doenças associadas.
Apesar de, em França, 10% da população
padecer de insegurança nutricional, hoje, na maior parte dos países, mesmo que
alguém perca o trabalho é improvável que morra de fome, esta que chegou a ser,
historicamente, a causa de 1/5, 1/4 ou 1/3 das mortes de uma dada população.
Assim, Yuval Noah Harari sem
querer parecer excessivamente ingénuo, cínico ou triunfante - e para isso
alertando ao longo do texto diversas vezes: ainda há muita gente que sofre com
a fome, doenças ou conflitos bélicos, e nada nos garante que estes últimos, em
particular, estejam superados -, entende que a um nível macro é patente que as
grandes causas de sofrimento conhecidas até hoje pela humanidade - guerra, peste, fome -
se encontram em vias de dar lugar a outras demandas, porque a "história
tem horror ao vazio"(p.31) e, talvez, não nos iremos dedicar, em
exclusivo, "a escrever poesia": o tríptico acabado de enunciar
será, então, substituído, segundo o académico em causa, pelos desejos de imortalidade, felicidade e divindade (o
homem colocar-se no lugar de Deus). Não faltam os magos que consideram a
imortalidade como um passo inevitável, aduzindo, não raramente, datas para a
concretização do dito desiderato (alguns peritos apontam para 2100 ou 2200 o
ano em que os humanos vencerão a morte). Acontece, desde logo, que os níveis de
ansiedade seriam inéditos: enquanto um mortal dos nossos dias vai trabalhar,
jantar fora, ou passear conhecendo a sua finitude (mesmo que não imediata), um
imortal, sabendo da sua imortalidade, certamente se impacientaria de um modo
outro só de imaginar poder perder, num qualquer acidente, a imortalidade que
não havia sido dada a ninguém da mesma espécie, em tempos pretéritos. Harari
centra, contudo, a sua exposição primeira, em descortinar consequências - algo
que quer a literatura propriamente dita, quer o ensaio têm feito, e mais irão
fazer à medida que crescem as possibilidades biotecnológicas para o humano - de
uma simples (quando comparada com a imortalidade) duplicação da esperança média
de vida. Imaginemo-nos, portanto, a durar até aos 150/160 anos. Se nos
casássemos aos 40 anos, conseguiríamos manter um casamento durante 110 anos?
Nem os católicos mais fundamentalistas a isso obrigariam, afiança, com graça, o
ensaísta. E o cuidar dos filhos? Pois, dada a nova duração humana, tratar-se-ia
de uma recordação menor, ou, pelo menos, não tão relevante como agora nas
nossas vidas. A reforma, como é óbvio, estaria longe de poder ocorrer aos 65
anos. E na política, como aguentaríamos mais 90 anos com Putin no poder, na
Rússia?
Doce, ou amargo enlevo para alguns:
"pior do que viver sabendo que se vai morrer é acreditar que se vai ser
imortal e descobrir que não": "a verdade é que a medicina moderna não
prolongou a duração natural da nossa vida em um só ano" (p.39) . Para o
fazer, a medicina "necessitará de redesenhar as estruturas e processos
mais fundamentais do corpo humano e descobrir como regular órgãos e
tecidos". E não é claro que o consiga fazer até 2100.
Numa palavra, em 1900 a esperança média de
vida era de 40 anos. A biotecnologia, que agora afasta vírus e bactérias,
converte os humanos numa ameaça para si mesmos.
Pedro Miranda
domingo, 22 de julho de 2018
Uma entrevista futurista do Físico Michio Kaku.
Uma civilização de tipo 1 é também dita
planetária, porque controla todas as fontes de energia de um planeta. Controla, por exemplo, toda a luz do sol
que atinge o seu planeta, controla e meteorologia. Dentro de apenas 100
anos, chegaremos a esse estágio. É muito fácil calcular a produção total de
energia de uma civilização de tipo 1. Ao fazê-lo, percebemos que nos tornaremos
uma civilização planetária por volta do ano 2100. Depois, quando passarmos a
dominar todo o poder energético de uma estrela, teremos uma civilização
estelar, ou de tipo 2. Poderemos então brincar com as estrelas. Para dar um
exemplo, o Star Trek [Caminho das Estrelas], com a sua
Federação dos Planetas Unidos, podia potencialmente formar uma civilização de
tipo 2. O próximo passo são as civilizações de tipo 3, semelhantes às de A
Guerra das Estrelas. Cada civilização está separada da anterior por
um fator de cerca de dez mil milhões: tomando a potência energética de uma
civilização multiplica-se por dez mil milhões e obtém-se a potência energética
da civilização seguinte. (...)
Estamos prestes a tornar-nos uma
civilização de tipo 1. A internet é a primeira tecnologia de tipo 1 que
tem uma dimensão verdadeiramente planetária, é a primeira a espalhar-se por
toda a Terra. Para onde quer que olhemos, observamos culturalmente a prova
dessa transição. É por isso que a internet é tão importante. Uma
civilização de tipo 0 ainda transmite toda a selvajaria ligada à sua recente
saída do pantanal. A nossa continua marcada pelo nacionalismo, pelo fundamentalismo...Mas
quando chegarmos ao estágio de uma civilização de tipo 1, teremos eliminado a
maioria desses problemas. Quando chegarmos ao tipo 2, tornar-nos-emos
imortais: nada cientificamente conhecido destruirá uma civilização de tipo 2.
(...)
Até ao final do século, vamos ser capazes
de nos digitalizarmos. Tudo o que sabemos sobre nós próprios - a nossa
personalidade e até mesmo as nossas memórias - será convertido em dados
digitais. Neste momento,
o Human Connectome Project, que o Presidente Obama ajudou a lançar, está a
trabalhar no mapeamento de todas as conexões internas do cérebro.
Cada um de nós deixa já uma pegada
digital. Todas as nossas transações com cartões de crédito, as nossas
fotografias no Instagram, os nossos vídeos...Isso representa já uma
significativa informação digital. Mas perto do final do século, será o
próprio cérebro que vai deixar a sua marca. Vamos ser capazes de criar uma
imagem compósita de quem somos. Vamos poder digitalizar essa
imagem, carregá-la num feixe de laser e enviá-la para a Lua. Num segundo,
estaremos na Lua, em vinte minutos chegaremos a Marte, num dia acercamo-nos de
Plutão e em quatro anos estaremos perto das estrelas. Sem termos de nos
preocupar com reatores de foguetões, sem risco de acidentes, efeitos da falta
de peso ou raios cósmicos. Vou ao ponto de dizer que acho que isto já existe.
Que há extraterrestres muito mais avançados do que nós, que não se enlatam em
discos voadores. Os discos são muito datados, são mesmo muito do século XX!
Não, eles já se lasertransportam. É possível que exista uma autoestrada de
laserportação muito perto da Terra, através da qual milhões de seres se
laserportam através da galáxia, mas somos demasiado estúpidos para perceber
isso. (...)
Acima de tudo, o que deve ser
entendido é que já estamos hoje a transformar a Terra: a terraformação é uma
realidade. [Quanto a Marte], podemos avançar por etapas. Primeiro,
utilizando metano para aquecer um pouco a atmosfera. A segunda etapa será a de
instalar painéis solares para derreter as calotas polares. Uma vez que a
temperatura tenha subido seis graus Celsius, desencadeia-se uma reação
desenfreada. O aquecimento acelera. É só isso o que é preciso fazer: aquecer o
planeta cerca de seis graus. Atualmente, estamos a aquecer a Terra um grau e
nem sequer temos consciência disso. Mas em Marte, teremos de elevar a
temperatura conscientemente cerca de seis graus.
Depois, evidentemente, teremos de tornar
Marte habitável, com plantas geneticamente modificadas para poderem vingar na
atmosfera marciana, composta por altos níveis de dióxido de carbono. Teremos
também de explorar o gelo, para produzir água, e procurar combustível para os
nossos foguetões. Modificar geneticamente certas plantas, para que cresçam e
nos alimentem, e derreter as calotas polares. Estaremos em condições de iniciar
este processo dentro de uns 100 anos. Ninguém considera que possamos fazer isso
no imediato, mas será possível dentro de um século; depois de instalada uma
colónia em Marte, poderemos iniciar esse processo. (...)
Em 1967, se lhe dissesse que um dia o
Homem construiria o seu próprio foguetão e iria colocar a sua bandeira na Lua,
para reivindicar uma parte dela, acharia que estava maluco. E já chegámos aí.
Milhões de pessoas assistiram ao lançamento do foguetão Falcon Heavy [lançado
pela SpaceX, em 6 de Fevereiro de 2018]. Era um foguetão lunar. Quanto custou
aos contribuintes? Nada. Nem um cêntimo. Ninguém podia prever isso em 1967. É
por isso que precisamos de novos tratados. Porque a China, por exemplo, também
se está a preparar para ir à Lua; já anunciou que vai implantar lá a sua
bandeira. As empresas privadas acabarão por ir também à Lua, mais cedo ou mais
tarde. É que não é muito complicado ir até lá. E é por isso que precisamos de
tratados. No futuro, as pessoas irão passar a luz de mel à Lua. Vai tornar-se
uma atração turística.
(...)
Um dia [o Universo] vai ficar tão grande e
tão frio, que a vida não será capaz de subsistir. Desaparecerá toda a vida da
superfície da Terra. Portanto, a minha posição é a de que, como o Universo está
destinado a morrer, devíamos sair dele. (...)
De toda a vida formada na Terra, 99,9% já
se extinguiu. A extinção é a norma. Nós pensamos que a Mãe Natureza é doce e
carinhosa, mas ela também sabe ser selvagem e indiferente. A Natureza não se
importa que nos tornemos uma simples nota de rodapé da história da vida. Dito
isso, acho que somos diferentes dos 99,9% das formas de vida que desapareceram.
Os dinossauros não tinham um programa espacial e é por isso que eles não estão
hoje aqui. Eles fazem parte dos 99,9%. Quando o asteroide atingiu a Terra, eles
não sabiam como reagir. Nós temos um programa espacial, para podermos
desenvolver um plano de emergência.
entrevista realizada com Michio Kaku, Físico
norte-americano, Professor de Física Teórica no City College, em Nova Iorque,
pela revista 52 Insights (09-04-2018), e traduzida e publicada
pelo Courrier Internacional, nº269, Julho de 2018, pp.60-65. O
autor tem publicado inúmeros livros, traduzidos para português, e que fazem
parte do Plano Nacional de Leitura.
Pedro Miranda
quinta-feira, 28 de junho de 2018
Embalando a minha biblioteca de Alberto Manguel
"Embora
eu soubesse que éramos apenas os guardiões do jardim e da casa, sentia
que os livros, esses, me pertenciam, eram parte do meu ser. Costumamos
dizer que algumas pessoas nunca nos prestam atenção nem ajuda. Já eu,
raramente empresto um livro. Se quero que alguém leia um certo livro,
compro um exemplar e ofereço-lho. Acredito que emprestar um livro é
incitar ao furto. A biblioteca pública de uma das minhas escolas
mostrava um aviso que tinha tanto de exclusão como de generosidade:
«ESTES LIVROS NÃO SÃO SEUS: PERTENCEM A TODOS». A minha biblioteca nunca
poderia ter um aviso destes. Para mim, era um lugar absolutamente
privado, que me cercava e, simultaneamente, me reflectia. (...)
Muitas
vezes senti que a minha biblioteca explicava quem eu era, me conferia
um eu sempre em mudança, que se transformava constantemente ao longo dos
anos. E, porém, apesar disso, a minha relação com as bibliotecas sempre
foi estranha. Adoro o espaço de uma biblioteca. Adoro edifícios
públicos que se erguem como emblemas de identidade que uma sociedade
escolhe ter, imponentes ou discretos, intimidantes ou familiares. Adoro
as infindáveis filas de livros cujos títulos tento ler naquela escrita
vertical que tem de ser lida (nunca descobri porquê) de cima para baixo
em inglês e italiano e de baixo para cima em alemão e espanhol. Adoro os
sons abafados, o silêncio meditativo, o brilho contido dos candeeiros
(especialmente se forem de vidro verde), as secretárias polidas pelos
cotovelos de várias gerações de leitores, o cheiro do pó, do papel, da
pele, ou os cheiros novos das secretárias plastificadas e dos produtos
de limpeza com aroma adocicado. Adoro o olho que tudo vê do posto de
informações e a solicitude sibilina dos bibliotecários. Adoro os
catálogos, especialmente as velhinhas gavetas de cartões (onde ainda
sobrevivem), com as suas oferendas dactilografadas ou manuscritas.
Quando estou numa biblioteca, qualquer biblioteca, tenho a sensação de
ser transportado para uma dimensão puramente verbal, por um passe de
magia que nunca compreendi inteiramente. Sei que a minha verdadeira
história, toda ela, está lá, algures nas prateleiras, e tudo o que
preciso é de tempo e de sorte para a encontrar. Nunca acontece. A minha
história continua a escapar-me, porque nunca é a história definitiva.
(...) Penso em «biblioteca» e sou imediatamente dominado pelo paradoxo
de que uma biblioteca mina qualquer ordem que possua, com combinações
fortuitas e fraternidades acidentais, e que se eu, ao invés de me ater
ao convencional caminho alfabético, numérico ou temático que uma
biblioteca estabelece para me guiar, pelo contrário me deixar tentar
pelas afinidades não-electivas, o meu objecto deixa de ser a biblioteca e
passa a ser o feliz caos do mundo que a biblioteca tenciona ordenar.
Ariadne transformou o labirinto num caminho claro e simples para Teseu; a
minha mente transforma o caminho simples num labirinto. (...) Não gosto
que me proíbam de escrever nas margens dos livros que levo de
empréstimo. Não gosto de ter de devolver livros, quando descubro neles
algo fascinante ou precioso. Como um saqueador ganancioso, quero que os
livros que leio sejam meus.
Talvez
por isso não me sinta à vontade numa biblioteca virtual: não se pode
possuir um fantasma (embora o fantasma nos possa possuir). Quero a
materialidade das coisas verbais, a presença sólida do livro, a forma, o
tamanho, a textura. Compreendo a conveniência dos livros imateriais e a
importância que têm numa sociedade do século XXI, mas, para mim, têm a
qualidade das relações platónicas. Talvez por isso sinta tão
profundamente a perda de livros que as minhas mãos conheciam tão bem.
Sou como Tomé, preciso de tocar para acreditar".
Alberto Manguel, Embalando a minha biblioteca, Tinta da China, 2018, pp.14-21
Partilha do Pedro Miranda
domingo, 24 de junho de 2018
quinta-feira, 14 de junho de 2018
Reflexão de Pedro Miranda sobre o Futebol
Como o futebol explica o Homem
Fomos caçadores-recolectores e
desenvolvemos estratégias, tácticas, conspirações para apanhar as presas. Era,
literalmente, matar ou morrer. Também do ponto de vista genético, biológico
tivemos que ganhar capacidades de corrida, força, resistência, cálculo e tanto
mais. Um dia aprendemos a domesticar animais. Com a sociedade agrícola ficámos
mais sedentários. A conversa e o treino mole não iam connosco, humanos
preparados para o assalto final, adrenalina que havia que fazer jorrar,
ansiedade e stress para colocar em campo, a aventura que havia que manter
intacta: continuámos a caçar (mesmo com a emergência da Agricultura).
Fomos progressiva, mas sucessiva e maciçamente para as cidades. A cultura
urbana não se dá bem com as caçadas - que permaneceram em retiradas ao campo.
Sobretudo, e com os romanos, as caçadas chegaram à cidade: o Coliseu, com 45 a
50 mil lugares, encheu no primeiro dia para ver 5 mil animais serem mortos. A
tourada poderá ser vista como o grande sucessor moderno do Coliseu. Ou, quiçá,
as largadas de Pamplona imitem melhor os tempos antigos - de Pamplona e de
certas partes de Inglaterra ainda em 1820, diga-se. Os domadores de leões, do
circo, podem ter ainda aí a sua génese. Mas a defesa, no séc.XIX, dos animais,
veio para ficar e a caça primeva sofisticar-se-ia sob a forma futebolística. A
guerra, outra metáfora, não responde ao que no futebol não é a aniquilação do
inimigo, mas caça à baliza contrária. Quando se pergunta, antropologicamente, o
que está em jogo com o futebol, a resposta de Desmond Morris é:
está, antes de mais, o homem caçador recolector, os assistentes do
Coliseu, moderninhos e por isso recolectores-caçadores
frustrados, que apontam o arco e flecha à baliza adversária (num jogo onde
as tais características de táctica, estratégia, pontaria, motivação, valentia,
visão, força, resistência, perseguição, bem como a adrenalina, a aventura, a
presença tribal estão aí).
"O animal humano é uma
espécie extraordinária. Entre todos os acontecimentos da história humana,
aquele que atraiu a maior assistência não foi uma grande ocasião política, nem
uma celebração especial de alguma proeza complexa nas artes ou ciências, mas
sim um simples jogo de bola - uma partida de futebol. Calcula-se que mais de
mil milhões de pessoas terá assistido a uma final do Campeonato do mundo quando
esta foi transmitida na televisão global" (p.12). Ora, este facto
gera, não raro, estupefacção, zanga, mau-humor, incompreensão. A ideia, sugere
Desmond Morris, é estar mais atento ao futebol, isto é, perceber o que no
futebol extravasa o futebol e diz muito (mais) sobre o Homem que o vê e/ou
pratica; como no futebol percebemos o humano, de que forma aquele ajuda a
explicar este. Não é um fenómeno guerreiro, mas é certo que o que podemos
escutar durante um jogo entre os tiffosi ou os movimentos
do marcador relevam, para muitos, de uma "batalha estilizada":
"se o jogo de futebol fosse não mais do que uma caçada ritual, tudo o
que interessaria a uma equipa e aos seus adeptos seria o número de golos (ou
seja, matanças) marcados, independentemente do número conseguido pelo
adversário. Mas, obviamente, não é este o caso. A diferença entre o número de
golos marcados é que assume a maior importância, sendo muito melhor ganhar por
1-0 do que perder por 3-4. Como tal, ainda que a sequência do jogo e a sua
«perseguição ritual de uma pseudopresa» se baseiem na analogia com a caça, o
resultado final está, isso sim, relacionado com o simbolismo da batalha. Estas
duas facetas [caça e batalha] encontram-se activas e contribuem para o
entusiasmo sentido pelos espectadores" (p.29). De resto, a
doutrina divide-se entre os que pensam ser o futebol uma válvula de escape
benigna, que canaliza e purga as tensões e frustrações da semana nos insultos a
jogadores e árbitros ao fim de semana (um efeito catártico, que coloca em local
seguro da cidade uma autêntica "bomba atómica" acumulada) e,
diversamente, quem entende que nenhum efeito terapêutico há aqui, porque a ida
ao futebol é um acumular de tensões, é um acréscimo de emoções negativas, a
ansiedade e o medo da derrota a acrescentarem à zanga familiar ou às pressões
do patrão na empresa. Ambos têm razão e os efeitos anulam-se mutuamente,
entende o biólogo-etólogo (pp.30-31).
Uma outra imagem para o beautiful
game passa pela comparação religiosa: mesmo os hooligans,
afinados nas canções, assemelhar-se-iam a meninos de coro. A
liturgia de sons e coros da bancada, o «relvado sagrado" e o estádio
«santuário» concertar-se-iam para indicar ou ratificar esta imagem (para além
de magias e superstições com que muitos confundem o religioso - e que no
futebol abundam). "Num aspecto importante, não podem restar dúvidas
quanto à importância religiosa dos eventos futebolísticos. De um modo bastante
real, e para uma grande parte da população, estes substituíram os serviços e
festivais religiosos de outros tempos. À medida que as igrejas de muitos países
ocidentais se foram esvaziando com o enfraquecimento da fé religiosa, as
comunidades das grandes cidades perderam uma importante ocasião social. A
reunião regular de grandes congregações nas manhãs de Domingo era mais do que
uma questão de culto comunitário: era também uma afirmação de identidade de
grupo. Proporcionava aos devotos frequentadores da igreja de outros tempos uma
sensação de pertença. O serviço religioso apinhado era um acontecimento com
tanto de social como de teológico. Agora, com o seu declínio, bem como dos
salões de dança públicos e dos cinemas, e com a ascensão desses grandes
isoladores sociais - televisão e o computador -, o homem da cidade vê-se
cada vez mais privado de grandes reuniões comunitárias nas quais pode ver ser
visto como parte de uma população local. De algum modo, o desafio de futebol
sobreviveu a estas alterações e, agora, assume um papel mais importante
enquanto forma de demonstração de fidelidade local" (p.33). Essa
ligação umbilical ao "local", por parte do futebol, é ilustrada por
Morris, de um modo para nós talvez surpreendente, com o acréscimo económico
para cada comunidade em função do desempenho positivo do clube da terra, na
medida em que isso gera uma motivação, uma sensação de bem estar, uma
disposição dos trabalhadores que aí se reflecte claramente ("um
impressionante testemunho disto mesmo é a descoberta de que o sucesso da equipa
de futebol local aumenta, na realidade, a eficiência e a produtividade das
fábricas próximas. O incremento de estatuto sentido pelos trabalhadores locais,
que constituem o grosso dos adeptos futebolísticos, traduz-se num melhor ritmo
de produção e numa economia local mais dinâmica", p.32).
Porque é que, sintetizemos em
definitivo, o futebol é importante e concita tanta atenção pelo mundo? Porque
nos devolve ao primitivo estado de caçadores-recolectores em
versão sofisticada, mas com suficiente adrenalina e aventura (o nosso código
genético impele-nos a essa aproximação a uma actividade que concentra
tantas características próximas dessa dimensão primordial para sermos como hoje
somos); porque num mundo atomizado e sem pertença(s), o futebol, para muitos é
espaço de religação; porque há uma liturgia, cânticos, cores e
emoções que nos ligam aos outros, em especial aos outros "locais" ou
da mesma cor (a tribo); porque há uma "cidadania local" que toca os
resultados do clube da terra; porque nos empenhamos na encenação da batalha
(mais um golo do que o adversário e vencemos aquela luta - e nisso nos
entusiasmamos); porque há algo de representação teatral, também, no futebol -
"grandes estrelas, desempenhos virtuosos, ocasiões de gala, clubes de
fãs" (p.40). Eis como Desmond Morris explica o (sucesso do) futebol,
quer dizer, o homem (que vê e pratica futebol).
Pedro Miranda
Acaba de ser reeditado e revisto
(edição aumentada) o livro A tribo do futebol (Arte e Ciência,
2018), de Desmond Morris, com tradução de Francisco Silva Pereira e
Prefácio de José Mourinho: "É por isso que dizem que o
futebol é o desporto mais completo da história da humanidade. Há a emoção e a
matemática, fundidas numa equação elegante. A tribo evolui como evolui o jogo.
O futebol total deu lugar à totalidade do futebol - dentro e fora do campo. E
quem não o percebe, não percebe nada. Quem só sabe de futebol não sabe nada de
futebol. Quem só olha para o jogo como 22 homens atrás de uma bola não percebe
a sua vertente geométrica, o seu bailado, a sua imensidão psicológica, a sua
verdadeira natureza - a representação mais fiel da natureza humana nas suas
variadas componentes: uma tribo onde a razão impera pela táctica e a emoção
impera pela recreação" (p.10).
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