terça-feira, 15 de outubro de 2019

Nobel da Economia 2019



Não esquecer os últimos – a propósito da Economia dos Pobres, dos Nobel 2019 da Economia, Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo

Apesar da ilusão de que com a globalização nos passámos a conhecer todos muito bem, – todos, de todos os continentes e lugares -, a verdade é que não apenas a rede não chega a demasiados locais do planeta, como, ademais, mesmo os que nos julgamos privilegiados no acesso à informação e ao conhecimento, nos países mais desenvolvidos, revelamos, não raro, uma grande ignorância do que se passa, dos costumes e usos prevalecentes, em vários pontos da Terra. Se pensarmos numa questão, como a da pobreza, muito presente, em definitivo, nas nossas sociedades e estudarmos o que sucede, a este propósito, em paragens de matriz cultural diversa da nossa, (também) aí, estou em crer, não deixaremos de ficar surpreendidos. Neste sentido, a partir da obra de Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo, A economia dos pobres, queria, aqui, destacar dois casos que julgo bastante ilustrativos, no contexto do que pode ser o nosso desconhecimento de outras realidades, de outras causas e motivações, para problemas de que padecemos. Pensemos, pois, na pobreza fora dos cânones ocidentais.
Concentremo-nos em uma aldeia indiana, Naganadgi, na província de Karnataka e tentemos perceber o modo como muitos pais (rurais) veem a educação dos seus filhos. Aceitemos que entendem, sobretudo, a educação, como um modo de os seus educandos adquirirem uma considerável riqueza. Mas avancemos um pouco. Constatemos que, para muitos pais, a correlação entre um salário e a escolaridade se faz de forma drástica, pelo que os ganhos que prevêem para uma formação com o nível de ensino Secundário, p.ex., é sobrevalorizada, e aqueles obtidos com uma formação com o ensino primário e básico subvalorizados, face ao que as estatísticas mostram ser a real compensação, ao nível dos rendimentos auferidos, por quem possui tais (diferentes) habilitações. Registemos que em Madagáscar, ou em Marrocos, pais pensam de forma semelhante a estes pais de uma aldeia indiana. Ora, com tais ideias pré-concebidas, “uma crença na forma em S”, o que sucede é que para muitos progenitores “faz sentido colocar todos os ovos educativos no cesto do filho que acharem ser mais promissor, certificando-se de que recebe a educação suficiente, em vez de espalhar o investimento de igual modo por todos os filhos”.
Portanto, primeira ideia aqui a sublinhar, quanto ao que sucede ao nível educativo, e que funciona como “ratoeira da pobreza”, em vários pontos do globo, não ocidental: os pais, em muitos locais, tendem, desde tenra idade, a selecionar o filho – que, por diferentes causas/experiências, consideram “inteligente” – para ir à escola e ter uma formação extensa de modo a compensar (em ganho acrescido, o que se perde, nomeadamente, pelo não desempenho de um dado trabalho, de modo mais precoce).
Segunda ideia: sociedade com castas (atentem na importância de uma mundividência). Nomes de pessoas que incluem o nome da(s) casta(s). Num estudo, propõe-se a um conjunto de professores que avaliem exames em que certos testes surgem com o nome do aluno – e respectiva casta – e outros em que há anonimato quanto ao aluno em causa. Resultado: verificou-se “que, em média, os professores davam notas significativamente mais baixas aos alunos das castas mais baixas, quando conseguiam saber a sua casta do que quando não sabiam. Os professores das castas mais baixas tinham na realidade maior probabilidade de dar piores notas aos alunos das castas mais baixas. Deviam estar convencidos de que estas crianças não podiam ser bons alunos”. Juntando estas duas ideias, compreenderemos que “a combinação das elevadas expectativas e da pouca fé pode ser bastante letal. Como vimos, a crença na curva em S leva as pessoas a desistir. Se os professores e os pais não acreditarem que a criança consegue atravessar o alto e chegar à parte íngreme da curva em S, poderão nem sequer tentar: o professor ignora as crianças que ficaram para trás e os pais deixam de ter interesse na sua educação. Mas este comportamento cria uma armadilha de pobreza, mesmo onde ela antes não existia”.
Ensinaram-nos os clássicos que há mais coisas entre o Céu e Terra do que a nossa vã sabedoria pensa. Não é a globalização, como com ingenuidade poderíamos supor, que abole esta máxima. E também não pode ser uma nossa situação precária a levar-nos à ignorância e esquecimento dos que continuam preteridos, no mais absoluto obscurecimento, por esse mundo fora.

Pedro Miranda

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Vamos imaginar... a nova biblioteca


A nova biblioteca está em fase de acabamentos.  Porque queremos ir ao encontro dos desejos da nossa comunidade educativa, durante o mês de outubro, vamos pedir aos nossos utilizadores que imaginem a sua biblioteca ideal.



sexta-feira, 27 de setembro de 2019

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Bom ano letivo 2019-20

Como motivação para o novo ano letivo, um texto celebrativo do sucesso de um ex-aluno - David Ramos



Os meninos da São Pedro. O rap…de David Ramos

1.Foi no final dos anos 90 que chegou até nós o rap, sob uma vaga de hip hop que notámos nos liceus. Principiara nos anos 70, no Bronx, descendendo dos «dozens» ou «snaps», isto é, de um jogo afro-americano que envolvia uma escalada verbal (de insultos) até um dos jogadores desistir, com a assistência a acicatar os contendores para que continuassem – um jogo, aliás, que ainda podemos encontrar nas nossas cidades e em transmissões nas redes sociais. Ao estranhamento inicial, às dúvidas sobre a transposição cultural em ambientes muito diversos do original – e recordo como falhou, à época, a nível local, um parque radical, em Codessais, e que continha uma espécie de cenarização que subjazia a uma certa ecologia (na qual aquela música cabia também), com os seus skates e grafiti, os bonés virados do avesso, que transpareciam nos videoclips -, sucedeu a constatação de uma forma cuja apropriação encontra, no tempo horizontal e despojado em que nos movemos, um eco vibrante, em especial, mas não apenas, junto das gerações mais jovens.
2.Camile Paglia, a conhecida e heterodoxa Professora de Humanidades na University of Arts, de Filadélfia, nota, em Provocações (Relógio d’Água, 2019), como a “cadência rápida e as rimas internas saltitantes possuem uma enorme vitalidade de propulsão. Enquanto estilo artístico, o rap é energético e confrontativo, mais do que contemplativo ou autoanalítico”. Mais ousado ainda, aquela que meio antes da decisão de atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan escrevera, em Salon.com, que uma canção de Dylan, “Desolation Row”, “é muito maior do que qualquer coisa produzida desde então pelos poetas oficiais, canonizados pela instituição da crítica americana e britânica”, é igualmente contundente na apreciação do género rap quando este se confronta com a poesia anglo-americana contemporânea: “a canalização improvisada da fala coloquial no rap é tão robusta e dinâmica que faz a poesia americana e britânica contemporânea parecer afectada, bolorenta e fechada em si mesma”.
3.Escuto repetidas vezes as canções, leio atentamente as letras do álbum que o vila-realense David Ramos lançou, em concerto vívido e vivido, a 8 de setembro no Teatro de Vila Real. Creio que, transversalmente, o sujeito poético – se quisermos, o Smith invisível de que fala, com graça, David Ramos numa das suas canções, num jogo de trocadilhos que reclama do leitor aquele mínimo de cultura geral para perceber a mão que embala a canção -, para me ater, aqui, à dimensão ética das canções de “Ónus da Prova”, ou seja, ao seu conteúdo, sublinha a ideia de uma espécie de redenção existencial – por exemplo, “o passado apaguei-o/a tristeza já vai longe”, na canção “Deixa-me viver”; “quando a vida duvidou/nunca nos dividimos”, em “Tásse Bem”; “minha maior vitória/são as falhas do que fui”, em “Processo”, “Lágrimas que não choraste/Por todas as derrotas/histórias que não rasgaste”, em “Essa vida” -, sendo que a ênfase na importância dos tropeços ou das quedas surge como que em pano de fundo de uma sabedoria já experimentada – “é nos erros que eu acerto”, em “Deixa-me viver”, por exemplo – vem acompanhada quer da recusa da autocomplacência – “Ia subir a escala/sem precisar de dó”, em “Não vale a pena”; “é com berros que eu desperto”, em “Deixa-me viver” ou “instinto suicida é fraqueza/não coragem”, em “Essa vida” -, quer do reclamar de valores meritocráticos e de autenticidade.
Se, contrariando aqui, neste álbum, se bem interpreto, a asserção de ausência contemplativa e auto-analítica no rap (a que aludia Paglia), no que podemos observar enquanto dimensão auto-biográfica – o mundo do Direito, “a doutrina”, casada com as rimas e a batida que rouba horas de sono, em “perfeita comunhão”, em mais uma tirada que não podemos ler sem nela detetar alguma ironia, pelos inevitáveis cansaços da conjugação de todos os mundos a que o autor se dedica intensamente -, se a ideia de que “nada cai do Céu” como afirma noutra canção e se a palavra “suor”, utilizada na primeira pessoa, sai repetidamente da sua verve, bem como a dedicação e o amor ao rap, em elegia permanente, “como é que isto não é vida/se eu dou a vida por isto?”, em “Deixa-me viver” – eu escolheria, em todo o caso, os seguintes versos, como contendo uma concentração muito conseguida, e com uma imagem forte, daquilo que partindo da memória da avó desaparecida, e iniciando com recurso ao vocativo, pode funcionar como uma gramática geracional, como breve mas marcante hino de todos os que passámos, não sem ansiedades e angústias, por esta etapa: “’Vó,‘vó: Não estou pronto para ter tanto/peso nos meus ombros/como os escombros desse muro/que divide a liberdade/numa ânsia de futuro”.
Há um muro a entrepor-se entre a liberdade e o (ou a ânsia do) futuro – o autor pede desculpa se falhou aos que o esperavam, mas teve que agarrar-se aos estudos e aos estúdios. Não deu para todos os cantos noturnos. O futuro inevitavelmente gritado como brilhante a quem está na curva dos vintes – uma «idade entre» - é um peso tal que é como que contenha os escombros de um muro. Não um (muro) qualquer, mas o que dilacera, se quisermos, entre a satisfação do desejo e o diferimento do prazer – com a necessidade de ambos. E, não por acaso, o vocábulo “rotina” é reiterado, e visto com e como “algema” pelo sujeito poético, uma espécie de Sísifo agrilhoado a cada frequência, a cada exame, a cada oral, da qual sai, pois, claro, com sede de sentido (“gritar liberdade/se a rotina me algema”, promete o autor em “Não vale a pena”). Escreve David Ramos, de novo em “Não vale a pena”: “Tenho tantas questões e tão poucas respostas/se lhes dei a mão/porque me viraram as costas?”. E, em “Deixa-me viver”: “No fundo, só venci/quando estiver convencido/que isto tudo faz sentido”. E “isto” passa, claramente, pela música, pelo rap: “Que isto tudo faz sentir/que isto tudo faz sonhar”.
Apesar do claro elogio da amizade, presente em algumas das suas canções, do uso, nesse contexto grupal, de uma expressão coloquial jovem hoje bastante comum – “os meus putos” -, o sujeito poético tem os seus momentos existenciais mais dados à melancolia: “São tantos conhecidos/e no fundo estás sozinho”, diz em “Essa vida”. E aconselha, numa crítica a uma sociedade mercantilizada, que “se te sentires vazio compra o último modelo”; “Devemos ter o que não temos/para ser o que não somos”, eis o imperativo social, cuja hipocrisia, ele que não é de “clichês” nem quer “palavras caras”, denuncia.

4.O elegante e cavalheiro David Ramos – o violinista que prolonga o sujeito poético até ao Quénia, esse rapper que chega e triunfa, ele que é capaz da empatia com quem se abalança a vir de longe aportar à Europa - é também alguém que agarra a realidade pelos colarinhos, sem enfeites ou embrulhos: “Vaga é humanista realista Maquiavel”, seria quase uma síntese deste combate consigo e com a cidade, que pretende marcar. Com chispa, com a centelha e o gosto de tocar a matéria, avisa “eu não vou parar mais”.
O álbum de estreia de David Ramos chama-se “Ónus da Prova” e se ele se entendeu, como no-lo diz num dos seus temas, como Réu, ouvindo as canções deste seu álbum de estreia é caso para dizer que só é culpado (guilty) de fazer a cidade esperar por mais.

A Escola Secundária de S. Pedro congratula-se pelo sucesso académico do seu ex-aluno e agora jurista, bem como a sua estreia de um álbum musical que, assim, aqui assinalamos.

Pedro Miranda

quarta-feira, 31 de julho de 2019

100 ANOS DE PRIMO LEVI


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Este livro, Se Isto é um homem. E a educação dos jovens. Nos lager, procurou-se despojar o humano de si mesmo, lá onde um floco de neve pode ser o melhor dos manjares, execravelmente roubado por um capo nazi, ali onde se observa como os homens e as mulheres suplantaram todos os limites que julgavam serem seus e a sobrevivência é arrancada a condições infra-humanas, em combates onde se perdem amigos íntimos, mãe ou irmãs roubadas á vida, e em que um pai se pode converter em um estorvo, lugar onde a propriedade, a posse, aquilo que é meu, foi abolida para os prisioneiros e, assim, pode um simples barbear, o respeito por si mesmo, ser decisivo, a importância, ainda paradoxal da cultura (Primo Levi a sustentar-se na Divina Comédia, de Dante, face a verdugos da Alemanha de Kant, cujo imperativo categórico não desconheciam)[1], a pergunta não é, somente, onde estava Deus –

“Nunca mais esquecerei esta noite, a primeira noite no campo, que fez da minha vida uma noite longa e sete vezes aferrolhada. Nunca mais esquecerei aquele fumo. Nunca mais esquecerei as pequeninas caras das crianças cujos corpos eu tinha visto transformarem-se em espirais sob um azul mudo. Nunca mais esquecerei estas chamas que consumiram para sempre a minha fé. Nunca mais esquecerei este silêncio nocturno que me privou, para a eternidade, do desejo de viver. Nunca mais esquecerei estes momentos que assassinaram o meu Deus e a minha alma, e os meus sonhos, que tomaram a aparência de um deserto. Nunca mais esquecerei isto, mesmo que tenha sido condenado a viver tanto tempo quanto próprio Deus”[2]

mas, ainda, e fundamentalmente (porque Deus não acontece sem humanas mediações), onde se encontrava o Homem – com o que mostrou ser capaz de fazer a outro Homem.
Se me perguntassem por um livro a oferecer a um filho, aos 17 anos, seria este. Se me perguntassem por um livro capaz de fazer o continuum entre instrução (a acepção de educação mais vezes acometida à escola; a educação enquanto transmissão de conhecimentos) e educação (na acepção de educação mais vezes acometida à família; a educação como transmissão de valores), portanto, se me perguntassem por uma obra que, simultaneamente transmitisse conhecimentos – o que foi a noite do século XX – e valores – nunca deixes, com a tua geração, que isto se repita – seria este. Descida última e inolvidável à mais funda Invernia de mim – que carácter é o meu, se, em certas circunstâncias, o Homem é capaz de fazer isto ao Homem, e eu pertenço a esta espécie e condição? – e ao paradoxo que reverbera nas questões ontológicas e cósmicas densas. E crer, ainda, profundamente em ti, capaz de perscrutares no outro uma dignidade (valor) impossível de tornar num meio, sempre um fim (mesmo que ninguém esteja a ver). Capaz de dizeres, como disse Etty Hillesum, na maior experiência espiritual do séc.XX, num campo de concentração: Deus, quando tu não me puderes ajudar, eu vou estar aqui para te ajudar (a Ti). Combater o (pelo) último reduto, aquele que ninguém nos poder tirar, roubar, o mais íntimo gravado em nós, porque um saber de cor é um saber de coração. De aí a importância da arte, de aí o saber de cor poemas, pedaços de texto, músicas, filmes que fixem esse concentrado.



[1] Cf. Primo LEVI, Se isto é um homem, D.Quixote, Lisboa, 2010. A descrição dos campos, particularmente de Auschwitz, vinda de produzir, apoia-se no relato seminal de Primo Levi.
[2] Elie WIESEL, Noite, Texto Editora, Lisboa, 2003, 42. Em todo o caso, Wiesel dirá, posteriormente, que “Não creio que – após Auschwitz – possamos falar de Deus, podemos apenas, como dizia Kafka, falar com Deus (…) Mesmo quando falo contra Ele, estou sempre a falar com Ele. E quando estou furioso com Deus e tento mostrar-lhe a minha raiva, reside justamente aí um reconhecimento de Deus, não uma negação de Deus”. Apud. Tomás HALÍK, O meu Deus é um Deus ferido, 68.

Pedro Miranda

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Regresso a Reims de Didier Eribon

A recensão de Pedro Miranda.





1.Pode ser maior a vergonha social - a vergonha das origens sociais, familiares, que a todo o custo se pretende ocultar - do que a vergonha sexual - a vergonha de uma orientação sexual minoritária, que se pretende esconder. Didier Eribon assume ter tido maior relutância/dificuldade em escrever sobre a primeira do que acerca da segunda. No agora professor universitário, convive a filiação em uma família pobre com a homossexualidade. Regresso a Reims (D.Quixote, 2019, tradução de João Carlos Alvim) é tanto uma auto-biografia que permite fazer uma sociologia, como, dir-se-ia, uma sociologia que pode ser instrumento de pacificação consigo próprio - muitas vezes, Eribon aponta o dedo a si mesmo, ao seu egoísmo (p.106), ao seu abandono da família, em especial - e com aqueles a quem pertence - um pai, cuja personalidade detestara passa, na sua reelaboração sociológica do mundo, a ser uma vítima de uma determinada ordem social.

2.Do ponto de vista político, percebe-se muito bem, creio, a pertinência da publicação deste livro (mesmo) uma década após a sua edição original: a sua aproximação ao movimento da "classe operária"[já problematizaremos a expressão, no que possa conter/transmitir de (não) unívoca] da esquerda comunista à extrema direita resiste perfeitamente ao tempo e permite uma abordagem que tende a ser mais complexa, densa, completa que o retrato jornalístico mais típico (a este respeito). Eribon observa esta mesma realidade na sua família. Da militância comunista, muito convicta, até ao voto na Front National. Nuance: a passagem não se dá apenas para a extrema-direita; em certas eleições, mãe e irmãos haviam votado (passaram a votar) num candidato da direita (tout-court; não necessariamente um voto no candidato de extrema-direita).
Em 1977, o PC francês alcançara 20-21% dos votos. O que contribui para o seu declínio, então? Na análise deste homem formado em Filosofia, tratou-se de i) uma incapacidade (do partido comunista francês) de romper com o PC soviético, que financiava o seu congénere gaulês; ii) uma incompetência d interpretação, leitura, integração dos movimentos sociais surgidos na sequência do maio de 68; iii) a desilusão com a governação, na qual participaram membros comunistas, no início dos anos 80 (em 1981, Miterrand congrega, para si, uma parte dos comunistas, que alcançam apenas 15%); iv) a aceitação, pela esquerda, de uma espécie de contra-revolução ideológica, conservadora, à qual acabou por aderir; v) neste contexto, a perda, a mudança da linguagem (p.120) revelou-se, igualmente, determinante (diz Eribon, em dois exemplos, que deixou de se falar em exploração e resistência e passou a falar-se de «modernização necessária» e «refundação social»Desapareceram as noções de classe e da polaridade entre dominadores e dominados; vi) o discurso sobre os operários varreu-se e, estes mesmos, os operários obliterados do espaço público (mediático), isto é, deixa de haver uma representação (das perspectivas, dos interesses) de tais operários.
A coligação entre grupos determinados grupos sociais - mundo operáriofuncionários públicosprofessores - quando o «voto operário» era comunista - passa (agora) a ser outra quando a extrema direita recebe os votos operários: operáriosprecárioscomerciantesreformados abastados do sul da Françamilitares fascistasfamílias católicas tradicionais comporão uma nova coligação político-social...(p.127)
Muito interessantemente, Didier Eribon coloca, depois, em crise o pressuposto da «naturalidade» da adesão operária ao comunismo, para concluir que nunca o voto operário nos comunistas foi além dos «30%», sempre a direita tendo alcançado muitos dos sufrágios deste grupo (ao contrário do que tantas vezes se supõe, ou dá como adquirido).
Ainda segundo o ensaísta - que trabalhou no mundo do jornalismo, no Liberation e no Nouvel Observateur - o voto nos comunistas, pelos operários, era um voto que, depositado individualmente, era realizado em nome de uma «classe»; o voto na Front National era (é) uma soma dos preconceitos individuais de cada um dos operários. O PC captava tanto quanto moldava uma opinião/modo de estar políticos; a Front National limita(va)-se a incorporar os piores preconceitos dos seus putativos votantes. Neste aspecto, na visão do autor, durante anos, pertencer ao Partido significava, por exemplo, que a perspectiva racista, ou anti-imigração de muitos membros do operariado tinha que ser, depois, por estes, (auto-)anuladas - e essa era uma dimensão que tais militantes aceitavam, sabiam, viam, quase, com benignidade (uma espécie de missão civilizante que a integração política, naqueles termos, incluía; mesmo que o livro nos diga também dos flirt's do próprio Partido com posicionamentos anti-imigração; esta auto-biografia realça também que o movimento operário, as suas características, nas décadas de 60 e 70 do século XX não eram nada idênticas às dos anos 20/30).
Na descrição do posicionamento político dos seus familiares, a ideia de que se o voto no PC - enquanto durou - foi convicto, confiante e assumido, o voto na extrema direita não tinha (tem) o grau de adesão, de lealdade e de clareza (assunção do voto; a questão do voto escondido), ou mesmo identificação programática daquele (anterior).

3.Em O ódio à democraciaJacques Ranciére havia escrito que a democracia é o regime para o qual não há uma competência particular para nela se exercer um cargo, ser um representante (participar). Título académico, ascendência, (ser-se um) profissional de determinada área; nada habilita - a não ser o facto de ser cidadão - alguém para exercer o poder em democracia. Neste sentido, a democracia - nela exercer-se um determinado cargo - é o regime de todos (ou, se se preferir, de ninguém). Não há grupos "naturalmente" (pre)destinados a liderar num regime democrático, não há peritos ou tecnocratas a quem esteja destinado um cargo.
Este postulado, contudo, em não deixando de conter uma crítica implícita a um círculo restrito dos que se vão mantendo no (ou gravitando em torno do) poder (e seus corredores) ao longo de anos, como que pretendendo alargar o grupo dos que deviam ser tidos em conta para exercer cargos de governo (nos últimos anos, o regresso da ideia de sorteio, em democracia, tem tido particular força em diversos debates), recusando a tecnocracia, chamando a atenção para uma potencial elitização dos grupos de recrutamento e das vozes que fazem falta - outras experiências de vida, outros percursos a não serem levados em atenção, pelo menos em algumas democracias, do que os do universitárioadvogadoprofessor... -, podendo, aliás, retirar-se que assim se chamava a atenção para a reconhecida brecha entre representantes representados, não convence, de modo substantivo, Didier Eribon: para este, que cita expressamente esta obra de Ranciére, não se trata de emancipação (com esta proposta, a da não necessidade de competência para se exercer a democracia), na medida em que, com esta ideia, não se chega, sequer, a questionar porque os que não têm competência - num regime que a dispensa - não a possuem; por que é que os grupos sem especial qualificação, pensam, votam e decidiriam como o fazem (fariam; no caso de exercerem esse cargo...no seu entender, perigosamente, como depreende do que observa na família; mas ainda aqui um medo do povo, criticar-se-ia e, de qualquer forma, a ausência de competência, levada ao limite, colocaria o problema da competência para exercer um sufrágio)

4.No final da adolescência, e durante a sua juventude, Eribon quis afastar-se, o máximo possível, do meio de onde veio que representava, então, tudo o que lhe repugnava no plano dos sentimentos, práticas e ideias. Sentia, por exemplo, auto-complacência por não ter nos pais os interlocutores que achava merecer para os seus diálogos culturais. Ao contrário do que propunha Deleuze, para os pais de Didier Eribon ser de esquerda não tinha nada a ver com o suplantar do interesse pela sua rua e envolver-se emocionalmente com os oprimidos do mundo inteiro; eram considerações de ordem pragmática e muito comezinhas que os levavam a optar pela gauche (era esta que defendia os seus interesses nas questões que os importavam no seu quotidiano francês). racismo estava presente claramente na família (pp.133-134) - mais tarde, Eribon dirá perceber que a matança de cordeiros em sacrifício, os cheiros horríveis a comida num inteiro bairro, as pichagens nas paredes, a destruição de equipamentos sociais por parte de vizinhos magrebinos, justifica uma merecida indignação: mas como se faz disto uma visão global do mundo, assente no racismo?, era uma interrogação que o mortificava -, a homofobia, o anti-intelectualismo (atente-se na cena em que Eribon chega a casa com o Le Monde), os dichotes populares contra "os pretos", ou os "maricas" ou os "boches" (como chamavam, depreciativamente, aos alemães). A recusa de excessiva importância, e muito menos de poder, da juventude (nomeadamente universitária), fosse na família, fosse para ter em conta em termos político-sociais. O pai de Eribon ia para a taberna beber, embriagava-se frequentemente e era violento com certa constância (em família). Provavelmente, terá encetado relações extra-matrimoniais, que lhe pareceriam absolutamente normais...tanto quanto jamais toleraria que, alguma vez, idêntica ocorrência tivesse lugar com sua mulher. A sua virilidade, aliás, seria posta em causa se a esposa conduzisse o carro em vez deste (como chegava ocorrer à falta de carta deste), ou sustentasse (esta) a família em situação de desemprego do marido (ter a mulher, como sucedeu, que ir trabalhar para uma fábrica, com a presença de outros homens nesta, era, já de si, desonroso o bastante; a mãe de Eribon trabalhou como empregada em casa de patrões que praticavam, como era uso à época, assédio sexual; tinha-se casado, de forma pragmática, com o homem que viria a ser pai de Eribon, não por ser o seu desejado, mas porque em falhando este, por complicações familiares, queria emancipar-se e construir família...pode ser este como podia ser outro; a mãe de Eribon sempre se soube inteligente e sofreu, por consequência, por não ter chegado muito mais longe na hierarquia social por falta de oportunidades)
Se Eribon se filiará, também ele, claramente à esquerda - virá a ser trostkista -, a contradição a que se via obrigado era um peso que carregava sobre os ombros: se o mundo operário que conhecia bem tinha aquelas características, e em boa medida lhe causavam repulsa os sentimentos que ali germinavam (bem como os discursos/práticas) era, paradoxalmente, este (mesmo) operariado que, ideologicamente, se esperava que defendesse (e defendia convictamente, ao mesmo tempo).
O retrato cru de Eribon, sobre o modus vivendi da família, e do entorno operário à volta, como que tem algo do Orwell de O caminho para Wigan Pier, quando não idealiza a classe operária e a conta com a frieza e o objectividade tal qual...ela se perpetua na sua memória. O tradicionalismo, os preconceitos, a recusa do outro (de nacionalidade diversa) com o qual, porventura, se esperaria que estivesse em fraternidade - era, às vezes, a greve que irmanava, de facto, nacionais e estrangeiros, em França, em luta contra o mesmo patrão; mas era, pois, uma irmandade construída politicamente - não são, aqui, obnubilados. 
Nasceu na pobreza, na miséria mesmo, veio de uma família cujos ascendentes, não raro, eram analfabetos (como uma das avós [pp.50-51]; o pai ficou-se pela instrução primária), haviam casado e tido filhos muito cedo e, em sucedâneo, postos fora de casa pelos respectivos progenitores; estes, recusarão, pois, os seus descendentes que viravam-se como podiam (o pai passa a ser operário antes dos 14 anos; e trabalhará, em simultâneo, em duas fábricas), famílias extremamente numerosas (a sua avó foi presa por abortar (p.68); os irmãos de Eribon, com a sorte decidida à nascença - nos termos deste -, concluíram em mecânico ou outra profissão "não intelectual"; ele seria o "miraculado" [era um milagre gostar de livros, pp.108], cujos pais vendiam leite para ele poder estudar Platão, e que ainda assim na faculdade foi [teve que ser] vigilante de computadores e trabalhou num hotel para poder sustentar-se (os pais garantiam-lhe, e com que orgulho, dois anos na faculdade, mas não possuíam recursos económicos para mais)Mesmo com pais não crentes, e até anti-clericais, foi, por estes, baptizado e, bem assim, inscrito no catecismo, não faltando às devidas comunhões/profissões de fé.
Houve um tempo em que pretendeu-se afastado de toda a tarefa manual - que julgava menor e inapropriada para quem se queria um intelectual (até ao dia que viu um respeitável académico fazer estantes nos tempos livres); assim, e ainda, o gosto pelo futebol haveria de merecer o seu desprezo, forma última de se reconhecer um bom espírito - também isto lhe passou. O cuidado com o sotaque, a (auto) vigilância dos vocábulos e expressões a usar; a mentira, mesma, sobre as suas origens. Assim foi durante anos. E, na revisão de uma vida que o levou às causas sociológicas de tudo - no que lhe valeu uma suspensão dos juízos mais severos que ruminara sobre os familiares diletos -, o reconhecimento, todavia, ainda, de que sem dúvida as redes informais de sociabilidade são determinantes, mesmo com os melhores diplomas, para se chegar a um emprego razoável. Foi num círculo de homossexuais, por aí se espalharem pessoas de várias classes sociais (de aí poder subir ao elevador, portanto, dando o salto social), que acedeu às publicações de prestígio (ou nem tanto, no olhar esquerdista de Eribon sobre o Libe em metamorfose ou Nouvel que nunca o convenceu) e ao mundo cultural a que aspirava; sem se ter encontrado com aquele círculo, com as mesmíssimas qualificações (que alcançara), não iria a nenhum lugar dado o ponto de partida. O mesmo, conta, que o levava a não ter, inicialmente, no liceu (ele que sempre foi bom aluno), o comportamento, a disciplina, o polimento, a atitude, que o deveria levar mais longe - e como uma amizade, em particular, o levou a esses ganhos, ao conhecimento dos compositores, dos autores, na música e na literatura, que era necessário conhecer para se ser alguém; aprendeu modos, um outro vocabulário, uma maneira de ser diversa; como que passou para outro habitus (e como em Eribon um autor como Bordieu é determinante!), e esta imitação liceal (do seu colega, filho de pais universitários) foi-lhe fundamental. Mas escolheu espanhol - quando os melhores apontavam ao alemão - e foi para letras - quando melhores empregos estavam nas ciências porque nunca teve um background familiar que o ajudasse a ler e interpretar o mundo. De aí, também, ter principiado por desaguar numa universidade próxima de Reims, sensivelmente cavernícola no que ao estudo da Filosofia diz respeito. Só a mudança para a capital - e apesar dos lugares de engate na terra de origem, a mudança para a grande cidade para poder prosseguir, digamos assim, a sua orientação sexual era um clássico; neste aspecto, e ainda assim, Eribon escreve páginas pungentes de perseguição, homofobia policial, espancamentos e outras "torturas" que viu serem perpetradas sobre homossexuais, lembrando, ainda e antes, o modo como ele mesmo gozara, na precocidade da sua adolescência, colegas e dissera as mesmas palavras de ódio, como que tentando extirpar a dúvida sobre a sua orientação e extirpar, mesmo, essa parte de si - o fez penetrar, profundamente, na filosofia (fosse na sua história, fosse, muito especialmente, no conhecimento do pensamento contemporâneo e seus mais insignes cultores).
Para Eribon, só quem pertence à classe dominante não sente pertencer a uma classe, da mesma maneira que numa sociedade homogénea branca ninguém sente a cor da pele...a não ser que seja negro. Com Sartre, e contra Aron (que qualifica como "superficial"), assim a auto-biografia carregada de sociologia e ideologicamente marcada de Didier Eribon.
Pedro Miranda

terça-feira, 11 de junho de 2019

Aprender com a Biblioteca Escolar - Matemáticos e Cientistas perseguidos pelo Estado Novo - 10.º A - Cidadania e Desenvolvimento

Os alunos do 10.º A, na disciplina de Matemática, orientados pela professora Helena Monteiro e pela professora Bibliotecária elaboraram cartazes sobre matemáticos e cientistas perseguidos pelo Estado Novo.





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