segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

20 lições sobre a Tirania


Síntese do nosso colega Pedro Miranda.


 
Seguem as "20 lições" que o historiador Timothy Sneyder, historiador, especialista nas questões atinentes ao nacional-socialismo, retirou das tiranias do século XX, propondo-se a um manifesto - que tinha a eleição presidencial norte-americana como pano de fundo, é certo - de alerta e de estímulo à participação política/de cidadania dos mais jovens. 

1. Não obedeças por antecipação -  se mostras predisposição para te adaptar a ordens e a um arbítrio que ainda só se murmura, o poder acabará por cavalgar sobre essa aceitação/resignação/obediência. Resiste ao mal. Exemplo desta obediência por antecipação: a atitude dos austríacos face aos nazis, mostrando que estavam "prontos", "maduros" para serem anexados e obedecerem cegamente.

2. Defende as instituições - estas podem ser/são a grande arma de defesa que o cidadão tem ao seu dispôr. Mas não confiemos demasiado: elas só se mantêm se estivermos vigilantes e se cada um, como cidadão e profissional, não se demitir. Jornais judeus, na Alemanha, afirmaram perentoriamente que apesar de todos os dislates, abusos, promessas terríveis, nunca Hitler as concretizaria, dadas as instituições vigentes. Viu-se.

3. Cuidado com o Estado unipartidário - apoia o sistema multipartidário. Não faltou quem chegasse ao poder e reconfigurasse a diversidade no uno, sem direito a qualquer adversativa. "Vota nas eleições locais e estatais, enquanto ainda é possível fazê-lo. Pondera uma candidatura a um cargo público" (p.23).

4. Responsabiliza-te pela face do mundo - aconteceu, a meio do século XX, amigos, de um dia para o outro, e como se fosse normal, deixarem de falar com amigos, porque estes foram assinalados com uma estrela. Nunca vires os olhos a um teu amigo. Tem atenção a todos os símbolos. Eles podem danificar, excluir, destruir, cercear o espaço público, capturar a democracia.

5. Lembra-te da ética profissional - a deontologia pode salvar. Se nos recordarmos e praticarmos os juramentos, se os levarmos, a eles e à vida, a sério: "se os advogados tivessem seguido a norma de não se permitir nenhuma execução sem prévio julgamento, se os médicos tivessem respeitado a regra de não se proceder de nenhuma cirurgia sem consentimento prévio, se os empresários tivessem defendido a proibição da escravatura, se os burocratas se tivessem recusado a despachar trabalho administrativo que envolvesse homicídio, o regime nazi teria encontrado muito mais obstáculos ao procurar levar a cabo as atrocidades pelas quais o lembramos" (pp.32-33)

6. Fica alerta com os paramilitares - grupos de capangas, de seguranças privados, rufias foram intimidando, com inusitada violência, adversários políticos dos nazis, assim contribuindo, fortemente também, para estes acederem ao poder (coagindo muitos dos demais cidadãos, ainda que chegando ao poder, em grande medida, ainda, de forma democrática). Neste ponto, portanto, Snyder olha para o papel das SS e das SA, mas fala ainda dos grupos que nos comícios de Trump foram calando - e despachando dos pavilhões - vozes dissonantes (perante o gáudio, em jeito de reallity show do próprio personagem central do comício). Muitos verão aqui exagero, ou mesmo ilegitimidade, na analogia; mas o discurso tem por objectivo ligar todos os alertas. Os sinais da atualidade são preocupantes deveras - eis a mensagem.

7. Sê prudente se tiveres de andar armado -  olha para quantos milhares mataram polícias ao serviço dos diferentes totalitarismos. Está pronto para te recusares; sê capaz de dizer não. Nenhuma burocracia te isenta da responsabilidade individual dos teus actos.

8. Opõe-te - é preciso correr o risco de ir contra o espírito do tempo, quando neste a hybris atravessa os espíritos. O fascismo e o comunismo foram produtos da reacção à globalização, oferecendo como soluções miríficas o "tudo pela nação" (contra a qual estaria em curso uma "conspiração": "um legado intelectual intacto cuja relevância vai crescendo a cada dia que passa") e "o monopólio da razão que faria a sociedade avançar na direcção de uma certa ideia de futuro fundamentada por supostas leis imutáveis da história" (numa sociedade, numa história que desaguaria, "inevitavelmente", no "comunismo"). Hoje, cumpre, de novo, não embarcar nos cantos de sereia que conduzem a lado algum - ou, mais rigorosamente, a um inferno terrestre.

9. Estima a nossa linguagem - "Tudo acontece depressa, mas na verdade nada acontece. Cada história que surge nas notícias transmitidas é de "última hora", até ao momento em que é substituída pela seguinte. Assim, somos levados por onda atrás de onda, mas nunca chegamos a ver o oceano (...) Há mais de meio século, os romances clássicos alertavam para o domínio dos ecrãs, para a proibição de livros, para a restrição dos vocabulários e para os consequentes obstáculos ao pensamento. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953, os bombeiros descobrem e queimam os livros enquanto a maior parte dos cidadãos ocupa o tempo a ver televisão interativa. Em 1984, George Orwell, publicado em 1949, os livros são interditos e a televisão bidireccional, permitindo ao governo manter uma vigilância apertada dos cidadãos. Em 1984, a linguagem dos meios de comunicação visual é largamente controlada, de modo que o público se ache totalmente privado dos conceitos necessários para reflectir sobre o presente, recordar o passado e ponderar o futuro. Um dos projectos do regime consiste em limitar progressivamente a linguagem ao eliminar cada vez mais palavras a cada edição do dicionário oficial. 
Olharmos fixamente para ecrãs poderá ser inevitável, mas o mundo bidireccional pouco sentido faz se não nos conseguirmos socorrer de um arsenal mental que possamos ter desenvolvido anteriormente noutras circunstâncias. Quando passamos a repetir as mesmas palavras e frases que surgem nos meios de comunicação diária, estamos também a permitir a ausência de uma perspectiva mais ampla das coisas. Dispor de semelhante perspectiva requer mais conceitos, e ter mais conceitos à nossa disposição requer leituras. Por isso, livra-te dos ecrãs que tens no quarto e cerca-te de livros" (pp.50-51).

10- Acredita na verdade. Há factos. Não há só opiniões. Não há apenas diferentes narrativas. Há verdade, não há só verdades. Procura, investiga, consolida o que é factual e só depois interpreta. Um espaço público onde não se conseguem estabelecer factos incontroversos leva demasiado longe a noção de sociedade fragmentada.


11. Investiga - o que dizes e escreves pode sempre influenciar outros. Nem o que dizes ao café, no facebook, no twitter ou num email é, à partida, isento dessa possibilidade. Em assim sendo, o teu gesto só será justo, legítimo, ético se investigares o que envias, o que publicas. Se leste, se estudaste. Não bastam as "letras grandes" ou a manchete do jornal, há que ir em profundidade para não manipularmos, nem sermos manipulados: "tira as tuas próprias conclusões. Dedica mais tempo À leitura de artigos longos. Subsidia o jornalismo de investigação através da subscrição de meios de comunicação social na sua forma impressa. Compreende que parte do que se encontra na Internet é divulgado com o intuito de prejudicar. Informa-te acerca de websites que investigam campanhas de propaganda (alguns dos quais chegam-nos do estrangeiro). Responsabiliza-te pelas tuas trocas de informação com outras pessoas (...) Os melhores jornalistas dos jornais impressos dão-nos a oportunidade de ponderar o significado (tanto para nosso proveito como do nosso país) daquilo que de outro modo pareceria apenas uma série de fragmentos isolados de informação. Contudo, ainda que esteja ao alcance de qualquer pessoa republicar um artigo online, a verdade é que investigar e escrever é um trabalho árduo que requer tempo e dinheiro. Antes de desdenharmos dos 'meios de comunicação de massas', devemos ter em consideração que estes já não são efetivamente para as massas. Fácil e próprio das massas é o desdém, sendo o verdadeiro jornalismo o que é de facto ousado e difícil (...) Se nos decidirmos a procurar os factos, a Internet concede-nos um invejável poder no sentido de divulgá-los (...) Tendo em conta que na idade da Internet a publicação é possível a todos, cada um de nós tem uma responsabilidade individual para com a noção de verdade difundida entre o público. Se estamos realmente determinados a procurar os factos, cada um de nós tem a possibilidade de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona. Se decidiste averiguar as informações por ti mesmo, é certo que não irás enviar notícias falsas a outras pessoas. Se optaste por seguir o trabalho de repórteres que consideras merecedores da tua confiança, poderás assim transmitir os seus conhecimentos aos outros. Se republicares no Twitter apenas as informações resultantes do trabalho de seres humanos que respeitaram os protocolos jornalísticos, menos provável será que acabes por conspurcar o teu cérebro ao interagires com bots e trolls. Não nos é possível vermos as mentes que prejudicamos ao publicarmos falsidades, mas tal não significa que não lhes façamos mal algum" (pp.59 e 62-64)

12. Faz contacto visual e conversa de circunstância - nos regimes repressivos, no séc.XX, o comportamento de um vizinho - afetuoso ou indiferente - fez a diferença no cimento que permitiu alargar a força da comunidade, ou enfraquecer os laços perante o regime, e, portanto, constituíram-se como passos para mudar, ou reforçar, respectivamente, o status quo

13. Pratica uma política corporal - não chega a denúncia cibernética, nem a indignação de sofá. Muitas vezes, a rua é necessária para haver mudança. E, ainda nela, criar novos amigos políticos capazes de a concretizarem. "Ao poder convém que o teu corpo apodreça na poltrona e as tuas emoções se dissipem num ecrã. Sai à rua. Leva o teu corpo para lugares desconhecidos e envolve-te no meio de estranhos. Faz amigos novos e participa em manifestações na sua companhia" (p.67)

14. Estabelece uma vida privada - não deixes que tudo quanto te diz respeito seja do conhecimento público, não te exponhas (demasiado) na rede. Os tiranos de todos os tempos jogaram com o conhecimento do domínio privado para anularem o "teu" protesto. "Somos livres apenas quando somos nós próprios a delimitar as ocasiões em que somos vistos e os momentos em que tal não acontece" (p.69)

15.Contribui para boas causas - "toma parte ativa em organizações, sejam elas de cariz político ou não, que expressem a tua perspectiva da vida. Escolhe uma ou duas instituições de caridade e decide-te pelo pagamento automático de donativos. Assim, terás feito uma escolha livre que favorece a sociedade civil e ajuda os outros a promover o bem comum (...) No século XX, todos os inimigos de peso da liberdade revelaram-se hostis para com as organizações não governamentais, instituições de caridade e afins. Os comunistas exigiam o registo oficial de todas estas organizações e transformavam-nas em organismos de controlo político. Os fascistas criaram o que vieram depois a designar sistema 'corporativista', no qual todas as atividades humanas eram enquadradas de acordo com um desígnio particular, sujeitas ao jugo do Estado unipartidário. Os regimes autoritários da atualidade (Índia, Turquia, Rússia) são, do mesmo modo, profundamente alérgicos à ideia de associações livres e de organizações não governamentais" (pp.75 e 77)

16. Aprende com os teus semelhantes de outros países - os observadores/jornalistas de Leste foram muito céleres a vaticinar a vitória de Trump, ao verificarem como decorria a campanha. Haviam-se habituado ao mesmo tipo de propaganda por parte dos russos, e notavam como os jornais norte-americanos não desmascaravam automaticamente cada mentira dita pelo então candidato, sentenciando, incessantemente, a sua derrota no estado seguinte (ainda no interior das primárias dos Republicanos). A experiência de nacionais de outros países podem ajudar-nos a ler a nossa própria realidade nacional. E isto, nota Snyder, quando "a história, que durante algum tempo pareceu rumar de oeste para leste, parece agora deslocar-se de leste para oeste. Tudo o que acontece aqui parece acontecer primeiro lá" (p.81). A leste, Rússia, Polónia, Hungria, seus regimes e lideranças.

17. Fica atento a palavras perigosas - a utilização de vocábulos, nos políticos, não raro, não é feita ao acaso. Pretende-se reconfigurar uma realidade, ou paisagem política, com base, também, nas palavras. Atenção, reitere-se, a palavras como "extremismo" ou "terrorismo" e escrutine-se da sua consistência/adesão à realidade. E onde, eventualmente, nos querem levar.

18. Mantém-te calmo quando o impensável acontecer - não deixes que a emoção violenta te leve a uma resposta (política) cega, que o fervor patriótico te manipule (para uma guerra, por exemplo). Contemplando o incêndio no Reichstag, Hitler imediatamente captou a possibilidade de tudo mudar na política interna (na caça às bruxas que a oportunidade se lhe oferecia; ainda hoje se desconhece a autoria do incêndio, mas, no fundo, tal acaba, para o caso, por ser indiferente). "Depois do incêndio no Reichstag, Hannah Arendt escreveu que "deixara de acreditar que uma pessoa pode simplesmente ficar na sua posição de espectadora" (p.92)

19. Sê patriota - e isso significa, por exemplo, pagares os teus impostos. Ser patriota é diferente de ser nacionalista, não significa rejeitar e ressentir face aos demais, mas partilhar "valores universais, padrões pelos quais ele avalia o estado da sua nação, desejando sempre que o seu bem, ainda que não deixe também de desejar que estivesse melhor" (p.95) 

20. Sê o mais corajoso possível - "se nenhum de nós estiver preparado para morrer pela liberdade, então todos nós morreremos sob o jugo da tirania" (p.97)

[Timothy SnyderSobre a tirania. Vinte lições do século XX, Relógio d'Água, 2017

sábado, 13 de janeiro de 2018

Dia do perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória




A Biblioteca Escolar também participa na discussão sobre o perfil do aluno. Durante a manhã de segunda-feira, estão convidados professores, alunos e funcionários para uma discussão alargada sobre o documento. Ver mais informação aqui.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Li e recomendo. Magnífico!


Astronomia de Mário Cláudio


Vencedor do prémio D. Diniz 2017 da Fundação da Casa de Mateus, é um romance "autobiográfico"  dividido em três partes: Nebulosa, Galáxia e Cosmos. Cada uma delas corresponde a uma fase da vida do autor. Começamos com o que recorda a infância (a vida de um menino filho único e super protegido, dos seus temores e fantasmas), e terminaremos com um, que é muitas vezes aquilo que os velhos voltam a ser. Pelo meio, a zona mais densa, que conta a parte fulcral da vida de um homem, de jovem a maduro, desde a sua passagem pela guerra colonial, a universidade, a função publica, a escrita e o reconhecimento, até à descrição de factos polémicos e pessoais, que tem que ver sobretudo com o amor, a sexualidade e a forma como a cultura, com o passar do tempo, se tornou pouco mais do que um espectáculo. 
 https://www.leyaonline.com/pt/livros/romance/astronomia/

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Justiça para Tod@s

Dezoito anos de prisão foi a pena aplicada ao arguido João Pedro Pinto Verdelho pelo cúmulo de penas resultante dos crimes de perseguição, ameaça, ofensa à integridade simples,ofensa à integridade física grave e qualificada, violação e rapto  da vítima Gardénia Orquídea Sepúlveda e Saavedra e os crimes de injúria e ameaça ao seu pai.
Foi na tarde de quinta-feira, dia 14 de dezembro de 2017, que os alunos do 11.º F e 12.º G participaram na simulação de julgamento de um caso de Violência no Namoro, inserido no Projeto Justiça Para Tod@s. A escola participou pela terceira vez neste projeto que permite conhecer melhor o funcionamento do poder judicial.
O julgamento foi presidido pelo Meretíssimo Juíz de Direito, Maximiano do Vale e coadjuvado pelo Procurador do Ministério Público, Doutor Nuno Leitão. Os alunos desempenharam, com brilhantismo, todos os papéis inerentes a um julgamento, a saber, arguido, vítima, procurador, advogados de defesa e acusação, testemunhas, polícias e jornalista.
A Escola agradece a atenção, disponibilidade e amabilidade com que, muito pedagogicamente, os Senhores Magistrados orientaram todo o julgamento.
Um agradecimento especial à nossa antiga aluna, Drª Raquel Coxo, pelo acompanhamento na criação e desenvolvimento do caso.


















Amnistia Internacional - Maratona de Cartas

Este ano, os alunos, professores e funcionários da Escola S/3 S. Pedro, superaram as expectativas e assinaram 864 cartas em defesa dos Direitos Humanos. Parabéns a todos os que contribuíram para o sucesso desta iniciativa.








quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Martha Nussbaum

Mulheres filósofas.

Com a colaboração do nosso colega Pedro Miranda, iniciámos um conjunto de posts sobre Mulheres Filósofas contemporâneas.





Em defesa das Humanidades
Not for profit. Why democracy needs the humanities?, de Martha C. Nussbaum.
A democracia precisa das humanidades porque nos relatos, nas narrativas que os romances, os contos, toda a literatura e, bem assim, o ensaio filosófico proporcionam, encontramos, não raramente, o ponto de vista do outro, levando-nos, de tal sorte, a poder internalizá-lo e a tê-lo devidamente em conta, sem o pretender eliminar, na nossa conduta e deliberação cidadã. A literatura e a filosofia são, assim, verdadeiros sustentáculos da coesão social e da democracia (“as artes e as humanidades desempenham uma função central na história da democracia, mas mesmo assim, muitos pais, na actualidade, têm vergonha de que os seus filhos estudem arte ou literatura. Ainda que a filosofia e a literatura tenham mudado o mundo, é muito mais provável que um pai ou uma mãe se preocupem porque os seus filhos nada sabem de negócios do que por terem uma insuficiente formação em matéria de humanidades”).
A democracia precisa das humanidades, desde logo carece da maiêutica socrática por sistema desde os primeiros passos na escola, porque serão estas que fornecerão músculo, pensamento crítico face a toda a autoridade (indiscutida), ou a todo o condicionamento grupal face ao qual, em muitos casos, qualquer dissensão é punida.
A democracia precisa das humanidades porque a vida é vida examinada, vida com sentido e o aparato de tipo filosófico/teológico/literário é, aqui, absolutamente insubstituível.
A democracia precisa das humanidades porque, através delas, a imaginação – e se quisermos, em especial a imaginação moral - não enfraquecerá e, por consequência, impedirá que haja homens e mulheres invisíveis numa sociedade (os que não têm voz, minorias, etc.): “se o verdadeiro choque de civilizações reside, como penso, na alma de cada indivíduo, onde a cobiça e o narcisismo combatem com o respeito e o amor, todas as sociedades modernas estão a perder a batalha a ritmo acelerado, pois estão a alimentar as forças que dão impulso à violência e à desumanização, em lugar de alimentar as forças que dão impulso à cultura da igualdade e do respeito. Se não insistimos na importância fundamental das artes e das humanidades, estas desaparecerão, porque não servem para ganhar dinheiro. Só servem para algo muito mais valioso: para formar um mundo no qual valha a pena viver, com pessoas capazes de ver os outros seres humanos como entidades em si mesmas, merecedoras de respeito e empatia, que têm os seus próprios pensamentos e sentimentos, e também com nações capazes de superar o medo e a desconfiança em prol de um debate guiado pela razão e pela compaixão” (p.189).
A democracia precisa das humanidades porque em sociedades cada vez mais complexas e plurais conhecer a história do outro, as principais convicções da sua mundividência, a sua cultura, a sua religião/tradição, a sua língua é essencial para sociedades pacificadas (“estão a produzir-se mudanças drásticas naquilo que as sociedades democráticas ensinam aos seus jovens, mas trata-se de mudanças que ainda não se submeteram a uma análise profunda. Sedentos de dinheiro, os estados nacionais e os seus sistemas de educação estão a descartar certas aptidões que são necessárias para manter viva a democracia. Se esta tendência se prolonga, as nações de todo o mundo em breve produzirão gerações inteiras de máquinas utilitárias, em lugar de cidadãos plenos com capacidade de pensar por si próprios, possuir um olhar crítico sobre as tradições e compreender a importância dos sucessos e sofrimentos alheios. O futuro da democracia à escala mundial está preso por um fio”, p.20)
A democracia precisa das humanidades porque o humano não é assim tão bonzinho e precisa de instituições/disciplina(s) capazes de o poderem motivar/contrariar e enquadrar num quadro de respeito pelo outro, sempre fim, nunca meio (“parece que esquecemos o que significa acercarmo-nos do outro como a uma alma, mais que como um instrumento utilitário ou um obstáculo para os nossos próprios planos. Parece que esquecemos o que significa conversar com alguém dotado de uma alma, com outra pessoa que consideramos igualmente profunda e sofisticada (…) o que me proponho destacar é o que significa essa palavra [alma] para Alcott e Tagore: refiro-me às faculdades do pensamento e da imaginação, que nos fazem humanos e que fundam as nossas relações como relações humanas complexas em lugar de meros vínculos de manipulação e utilização. Quando nos encontramos numa sociedade, se não aprendemos a conceber a nossa pessoa e a dos outros desse modo, imaginando mutuamente as faculdades internas do pensamento e a emoção, a democracia estará destinada ao fracasso, pois esta baseia-se no respeito e interesse pelo outro, que por sua vez se fundam na capacidade de ver os demais como seres humanos, não como meros objectos”, pp.24-25)
Martha C. Nussbaum assina, assim, um manifesto intenso contra o desinvestimento que a mentalidade que vai prevalecendo por estes dias estabelece relativamente às humanidades, face ao inútil ou não (imediatamente) rentável. Fá-lo, em todo o caso, a partir, em grande medida, da experiência norte-americana, onde o ensino das artes liberais, ainda assim, resiste, via filantropismo, à perda estatal, país no qual a tradição das humanidades presentes em grande medida no Secundário e Ensino Superior é uma realidade (isto é, onde a não especialização imediata, onde as disciplinas humanísticas sempre estão, mesmo em cursos de ciências duras, e onde as empresas buscam a abertura mental, a capacidade criativa, a flexibilidade e imaginação de quem vem das humanidades, onde em muitos cursos, no Superior, há turmas muito pequenas para que sucessivos trabalhos sejam corrigidos/apurados, muita discussão em sala de aula).
Sendo este o seu ponto de partida, também a experiência indiana (Tagore) é muito referenciada, face ao que o teatro, a dança, a literatura podem fazer para a compreensão entre as pessoas. Com vários dados sobre recentes experiências da psicologia, Nussbaum foge de qualquer idealização, encontra o humano tal como é, e é justamente por isso que lhe importa não negligenciar as artes liberais. Valoriza muito as histórias infantis, os desenhos animados que se dão a ver às crianças, não se ficando na elaboração abstracta, buscando o currículo e a escola que devemos prosseguir.
Autora que tem escritos numa linha rawlsiana, e com estudos feitos sobre as capacidades, com Amartya Sen, Nussbaum enfatiza, ainda, a importância da responsabilidade individual numa educação conseguida.

Pedro Miranda
[seguimos aqui a edição castelhana Martha C. Nussbaum, Sin fines de lucro – por qué la democracia necessita de las humanidades, Katz, 2010].

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Projeto Justiça para Tod@s

Vinda da Drª Raquel Coxo à nossa escola!

Com o objetivo de orientar e esclarecer os alunos de 11.º e 12.º anos envolvidos no Projeto "Justiça para Tod@s", a nossa antiga aluna, Drª Raquel Coxo, fez uma palestra muito esclarecedora e pedagógica, sobre o enquadramento legal dos crimes cometidos no  caso de Violência no Namoro que os alunos construíram com o apoio da professora Rosalina Sampaio. O caso será levado a julgamento (simulado) no próximo dia 15 de dezembro no Tribunal Judicial da Comarca de Vila Real.





sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Ida ao teatro - texto dos alunos do 9.º G





1325
El pasado día veintitrés de noviembre, mis amigos de clase y yo fuimos al teatro con nuestra profesora de Español y también con otra clase de décimo primer año a asistir al ensayo de la pieza de teatro “1325”. Llegamos y entramos en una sala pequeña donde estaban tres actores, Noelia Domínguez, Ángel  Fragua y Sérgio Agostinho.
“ 1325” se inspiró del libro llamado “1325 mujeres tejiendo la paz”, de Manuela Mesa Peinado, que fue editado por la Fundación Cultural de la paz, Madrid. Asistimos a pequeñas escenas del espectáculo a través de la presencia de tres abuelas que viven en un espacio habitado por ropa y memorias. Ahí, se hace un recorrido histórico, con una pizca de humor, sobre  la lucha en contra el racismo, los derechos de las mujeres y algunos conflictos bélicos, como el conflicto israelo-palestino.  Fue un espectáculo muy divertido, que recomendamos, pues nos hizo reflexionar sobre los derechos de la sociedad, más propiamente de la condición de la mujer.
Alumnos del 9ºG


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A Sociedade do Cansaço - A recensão de Pedro Miranda


Excelente texto do nosso colega Pedro Miranda.






Da sociedade do cansaço

O lamento do indivíduo depressivo, «Nada é possível», somente pode manifestar-se no interior de uma sociedade que acredita que «Nada é impossível” (A sociedade do cansaço, p.31). A frase de Byung-Chul Han ilustra, na perfeição aquele é, no entender do filósofo de origem coreana e Professor de Filosofia em Karlsruhe, o traço predominante do nosso tempo, a Ocidente: a existência de uma sociedade do rendimento que outorga um terrível poder ao indivíduo: o de se potenciar até ao ilimitado (inculcando-lhe, precisamente, a ideia da inexistência de limite a que pode aceder), o de se (auto) explorar até ao tutano, o de conseguir sempre mais, melhor, o de ter sucesso e ser responsável, solitário responsável, por ele, carrasco e verdugo em um só, hiperactivo e neurótico (se aquém da exigência, melhor, dos resultados que a si coloca como objectivo). Uma sociedade do idêntico, da positividade, sem o pólo da negatividade que marcou a sociedade disciplinar, de um controlo e obediência férreas, em que o não e a proibição eram marcos, que a precedeu. Mais do que abolir o controlo, subtileza, refinou-o a sociedade hodierna, passando (aparentemente?) o comando para a mão do indivíduo tão livre quanto escravo (“uma liberdade obrigada” a resultados óptimos). “Os projectos, as iniciativas e a motivação substituem a proibição, o mandato e a lei. A sociedade disciplinar é regida pelo não. A sua negatividade gera loucos e criminosos. A sociedade do rendimento, ao contrário, produz depressivos e fracassados” (p.27).
Em uma obra que principia por mostrar como o paradigma do imunológico ficou obsoleto porque implicava a outreidade/alteridade (o outro, o inimigo, o estranho…), esclarece que hoje o problema é de natureza inversa: o excesso do mesmo, do idêntico, tempo no qual são doenças neuronais, do défice de atenção à depressão, passando pelo síndrome do desgaste ocupacional que primam.
No fundo, uma hiperactividade, um activismo não raramente sem sentido, diríamos, até, substituto do sentido que não se divisa, ou, em casos outros, nem se interroga/busca (“A vida nua, convertida em algo totalmente efémero, reage, justamente, com mecanismos como a hiperactividade, a histeria do trabalho, a produção. Também a actual aceleração está ligada a essa falta de Ser. A sociedade do trabalho e rendimento não é nenhuma sociedade livre”, p.48; Nietzsche citado: “Aos activos falta-lhes habitualmente uma actividade superior […] nesse aspecto são folgazões. Os activos rodam, como roda uma pedra, conforme a estupidez da mecânica”, p.55). Multitasking também os animais selvagens apresentam: ora, protegendo as crias, ora procurando comida, ora avançando para outro animal, ora alerta contra possível ataque de selvagens diversos, ora salvaguardando a sua parelha sexual. O défice de atenção concentrada, a existência de uma dispersa hiperatenção (multiplicação da atenção por mil e uma coisas, tarefas, leituras) é colossal e os efeitos, para novos êxitos civilizacionais, tremendos: “Os recentes desenvolvimentos sociais e a mudança de estrutura da atenção fazem com que a sociedade humana se aproxime cada vez mais da selvajaria. Entretanto, o assédio laboral, por exemplo, alcança dimensões pandémicas. A preocupação pela vida boa, que implica também uma boa convivência, cede progressivamente perante uma preocupação pela sobrevivência. Os sucessos culturais da humanidade, aos quais pertence a filosofia, devem-se a uma atenção profunda e contemplativa” [que desaparece] (p.34/35).
Se o segundo capítulo da obra nos insere na tese principal (e inovadora) de um novo tipo de sociedade em pleno desenvolvimento, já a defesa, pelo autor, da urgência do recuperar desta dimensão contemplativa – “o seu carácter fundamental é o assombro sobre o Ser-assim das coisas, que está livre de toda a factibilidade e processualidade. A dúvida moderna e cartesiana substitui o assombro” (p.37) - contam-se entre as mais belas e sugestivas páginas deste pequeno livro. [citando Nietzsche, de novo: “Por falta de sossego, a nossa civilização desemboca em uma nova barbárie. Em nenhuma época, se quotizaram mais os activos, quer dizer, os desassossegados. Conte-se, por tanto, entre as correcções necessárias que devem fazer-se ao carácter da humanidade o fortalecimento em ampla medida do elemento contemplativo”, p.39].
Um capítulo inteiro é dedicado ao diálogo crítico com Hannah Arendt e (à sua) “A condição humana”. Se Gregório Magno pode ser apropriado a propósito, para sublinhar como no cristianismo a dimensão da vida activa não era desprezada (em favor de um exclusivo contemplativo), todavia o apontar à descrição do animal laborans feita por Arendt, como estando ultrapassada nos nossos dias, pois que “o animal laborans moderno tardio é, em sentido estrito, tudo menos animalizado. É hiperactivo e hiperneurótico” (p.45), parece contradizer a ideia, avançada pelo autor anteriormente, de que um hiperactivismo degrada o humano e, no caso do multitasking o aproxima do selvagem. Mais, havia escrito: “Ao novo tipo de homem, indefeso e desprotegido frente ao excesso de positividade, falta-lhe toda a soberania. O homem depressivo é aquele animal laborens que se explora a si mesmo, a saber: voluntariamente, sem coacção externa (…) já não pode poder mais” (p.30).
A perda da crença, das crenças é questão fulcral não obliterada pelo filósofo que a sabe tão concreta, tão prática, tão quotidiana: “a moderna perda de crenças, que afecta não só a Deus ou o além, mas também a própria realidade, faz com que a vida humana se converta em algo totalmente efémero. Nunca foi tão efémera como agora. Mas não só esta é efémera, como o é o mundo enquanto tal. Nada é constante e duradouro. Face a esta falta de Ser surgem o nervosismo e a intranquilidade (…) O Eu moderno-tardio está completamente isolado. Inclusivamente as religiões no sentido de técnicas tanáticas, que libertem o homem do medo da morte e gerem uma sensação de durabilidade, já não servem. A desnarrativização geral do mundo reforça a sensação de fugacidade: torna a vida nua (…) Ante a falta de uma tanatotécnica narrativa nasce a obrigação de manter esta nua vida necessariamente sã. Já o disse Nietzsche: depois da morte de Deus, a saúde é elevada a deusa. Se houvesse um horizonte de sentido que superasse a vida nua, a saúde não podia absolutizar-se desse modo (p.47)”.
Além do diálogo crítico com Arendt e Nietzsche, um outro autor várias vezes convocado ao ensaio é Agamben. Para quem leu O que resta de Auschwitz?, do filósofo italiano, não espanta que a descrição impressiva do humano dos nossos dias, por Byung-Chul Han, desague nessa comparação-limite com o Muselmanner dos lager, a arrepiante figura híbrida dos campos, morto-vivo, apático a quem já não havia chibatadas, frio ou gelo que tocassem, que fizessem mexer.
Em suma, um cansaço que trespassa cada um, que queima a alma, que rouba a fala, que semeia multidões de isolados, mesmo que ao lado dos outros (não era da apatia, da impassibilidade, do chicote que já não fazia mexer o cavalo imóvel que também falava Béla Tarr, em O cavalo de Turim?). E sabermos, com Handke, que o cansaço poderia ser tanto outra coisa, propulsor do ócio, do deleite, da atenção partilhada, onde a mesmidade não teria lugar, ou hegemonia.
Pedro Miranda

A partir de La sociedad del cansacio, Byung-Chul Han, Herder, Barcelona, 2012.


Excertos da obra, traduzidos para português, por mim.

A IMPORTÂNCIA DA LEITURA

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