quinta-feira, 28 de junho de 2018

Embalando a minha biblioteca de Alberto Manguel

 
 
 
 
 
"Embora eu soubesse que éramos apenas os guardiões do jardim e da casa, sentia que os livros, esses, me pertenciam, eram parte do meu ser. Costumamos dizer que algumas pessoas nunca nos prestam atenção nem ajuda. Já eu, raramente empresto um livro. Se quero que alguém leia um certo livro, compro um exemplar e ofereço-lho. Acredito que emprestar um livro é incitar ao furto. A biblioteca pública de uma das minhas escolas mostrava um aviso que tinha tanto de exclusão como de generosidade: «ESTES LIVROS NÃO SÃO SEUS: PERTENCEM A TODOS». A minha biblioteca nunca poderia ter um aviso destes. Para mim, era um lugar absolutamente privado, que me cercava e, simultaneamente, me reflectia. (...)
Muitas vezes senti que a minha biblioteca explicava quem eu era, me conferia um eu sempre em mudança, que se transformava constantemente ao longo dos anos. E, porém, apesar disso, a minha relação com as bibliotecas sempre foi estranha. Adoro o espaço de uma biblioteca. Adoro edifícios públicos que se erguem como emblemas de identidade que uma sociedade escolhe ter, imponentes ou discretos, intimidantes ou familiares. Adoro as infindáveis filas de livros cujos títulos tento ler naquela escrita vertical que tem de ser lida (nunca descobri porquê) de cima para baixo em inglês e italiano e de baixo para cima em alemão e espanhol. Adoro os sons abafados, o silêncio meditativo, o brilho contido dos candeeiros (especialmente se forem de vidro verde), as secretárias polidas pelos cotovelos de várias gerações de leitores, o cheiro do pó, do papel, da pele, ou os cheiros novos das secretárias plastificadas e dos produtos de limpeza com aroma adocicado. Adoro o olho que tudo vê do posto de informações e a solicitude sibilina dos bibliotecários. Adoro os catálogos, especialmente as velhinhas gavetas de cartões (onde ainda sobrevivem), com as suas oferendas dactilografadas ou manuscritas. Quando estou numa biblioteca, qualquer biblioteca, tenho a sensação de ser transportado para uma dimensão puramente verbal, por um passe de magia que nunca compreendi inteiramente. Sei que a minha verdadeira história, toda ela, está lá, algures nas prateleiras, e tudo o que preciso é de tempo e de sorte para a encontrar. Nunca acontece. A minha história continua a escapar-me, porque nunca é a história definitiva. (...) Penso em «biblioteca» e sou imediatamente dominado pelo paradoxo de que uma biblioteca mina qualquer ordem que possua, com combinações fortuitas e fraternidades acidentais, e que se eu, ao invés de me ater ao convencional caminho alfabético, numérico ou temático que uma biblioteca estabelece para me guiar, pelo contrário me deixar tentar pelas afinidades não-electivas, o meu objecto deixa de ser a biblioteca e passa a ser o feliz caos do mundo que a biblioteca tenciona ordenar. Ariadne transformou o labirinto num caminho claro e simples para Teseu; a minha mente transforma o caminho simples num labirinto. (...) Não gosto que me proíbam de escrever nas margens dos livros que levo de empréstimo. Não gosto de ter de devolver livros, quando descubro neles algo fascinante ou precioso. Como um saqueador ganancioso, quero que os livros que leio sejam meus.
Talvez por isso não me sinta à vontade numa biblioteca virtual: não se pode possuir um fantasma (embora o fantasma nos possa possuir). Quero a materialidade das coisas verbais, a presença sólida do livro, a forma, o tamanho, a textura. Compreendo a conveniência dos livros imateriais e a importância que têm numa sociedade do século XXI, mas, para mim, têm a qualidade das relações platónicas. Talvez por isso sinta tão profundamente a perda de livros que as minhas mãos conheciam tão bem. Sou como Tomé, preciso de tocar para acreditar".

Alberto Manguel, Embalando a minha biblioteca, Tinta da China, 2018, pp.14-21
 
Partilha do Pedro Miranda

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Reflexão de Pedro Miranda sobre o Futebol


 Como o futebol explica o Homem





Fomos caçadores-recolectores e desenvolvemos estratégias, tácticas, conspirações para apanhar as presas. Era, literalmente, matar ou morrer. Também do ponto de vista genético, biológico tivemos que ganhar capacidades de corrida, força, resistência, cálculo e tanto mais. Um dia aprendemos a domesticar animais. Com a sociedade agrícola ficámos mais sedentários. A conversa e o treino mole não iam connosco, humanos preparados para o assalto final, adrenalina que havia que fazer jorrar, ansiedade e stress para colocar em campo, a aventura que havia que manter intacta: continuámos a caçar (mesmo com a emergência da Agricultura). Fomos progressiva, mas sucessiva e maciçamente para as cidades. A cultura urbana não se dá bem com as caçadas - que permaneceram em retiradas ao campo. Sobretudo, e com os romanos, as caçadas chegaram à cidade: o Coliseu, com 45 a 50 mil lugares, encheu no primeiro dia para ver 5 mil animais serem mortos. A tourada poderá ser vista como o grande sucessor moderno do Coliseu. Ou, quiçá, as largadas de Pamplona imitem melhor os tempos antigos - de Pamplona e de certas partes de Inglaterra ainda em 1820, diga-se. Os domadores de leões, do circo, podem ter ainda aí a sua génese. Mas a defesa, no séc.XIX, dos animais, veio para ficar e a caça primeva sofisticar-se-ia sob a forma futebolística. A guerra, outra metáfora, não responde ao que no futebol não é a aniquilação do inimigo, mas caça à baliza contrária. Quando se pergunta, antropologicamente, o que está em jogo com o futebol, a resposta de Desmond Morris é: está, antes de mais, o homem caçador recolector, os assistentes do Coliseu, moderninhos e por isso recolectores-caçadores frustrados, que apontam o arco e flecha à baliza adversária (num jogo onde as tais características de táctica, estratégia, pontaria, motivação, valentia, visão, força, resistência, perseguição, bem como a adrenalina, a aventura, a presença tribal estão aí). 
"O animal humano é uma espécie extraordinária. Entre todos os acontecimentos da história humana, aquele que atraiu a maior assistência não foi uma grande ocasião política, nem uma celebração especial de alguma proeza complexa nas artes ou ciências, mas sim um simples jogo de bola - uma partida de futebol. Calcula-se que mais de mil milhões de pessoas terá assistido a uma final do Campeonato do mundo quando esta foi transmitida na televisão global" (p.12). Ora, este facto gera, não raro, estupefacção, zanga, mau-humor, incompreensão. A ideia, sugere Desmond Morris, é estar mais atento ao futebol, isto é, perceber o que no futebol extravasa o futebol e diz muito (mais) sobre o Homem que o vê e/ou pratica; como no futebol percebemos o humano, de que forma aquele ajuda a explicar este. Não é um fenómeno guerreiro, mas é certo que o que podemos escutar durante um jogo entre os tiffosi ou os movimentos do marcador relevam, para muitos, de uma "batalha estilizada": "se o jogo de futebol fosse não mais do que uma caçada ritual, tudo o que interessaria a uma equipa e aos seus adeptos seria o número de golos (ou seja, matanças) marcados, independentemente do número conseguido pelo adversário. Mas, obviamente, não é este o caso. A diferença entre o número de golos marcados é que assume a maior importância, sendo muito melhor ganhar por 1-0 do que perder por 3-4. Como tal, ainda que a sequência do jogo e a sua «perseguição ritual de uma pseudopresa» se baseiem na analogia com a caça, o resultado final está, isso sim, relacionado com o simbolismo da batalha. Estas duas facetas [caça e batalha] encontram-se activas e contribuem para o entusiasmo sentido pelos espectadores" (p.29).  De resto, a doutrina divide-se entre os que pensam ser o futebol uma válvula de escape benigna, que canaliza e purga as tensões e frustrações da semana nos insultos a jogadores e árbitros ao fim de semana (um efeito catártico, que coloca em local seguro da cidade uma autêntica "bomba atómica" acumulada) e, diversamente, quem entende que nenhum efeito terapêutico há aqui, porque a ida ao futebol é um acumular de tensões, é um acréscimo de emoções negativas, a ansiedade e o medo da derrota a acrescentarem à zanga familiar ou às pressões do patrão na empresa. Ambos têm razão e os efeitos anulam-se mutuamente, entende o biólogo-etólogo (pp.30-31). 
Uma outra imagem para o beautiful game passa pela comparação religiosa: mesmo os hooligans, afinados nas canções, assemelhar-se-iam a meninos de coro. A liturgia de sons e coros da bancada, o «relvado sagrado" e o estádio «santuário» concertar-se-iam para indicar ou ratificar esta imagem (para além de magias e superstições com que muitos confundem o religioso - e que no futebol abundam). "Num aspecto importante, não podem restar dúvidas quanto à importância religiosa dos eventos futebolísticos. De um modo bastante real, e para uma grande parte da população, estes substituíram os serviços e festivais religiosos de outros tempos. À medida que as igrejas de muitos países ocidentais se foram esvaziando com o enfraquecimento da fé religiosa, as comunidades das grandes cidades perderam uma importante ocasião social. A reunião regular de grandes congregações nas manhãs de Domingo era mais do que uma questão de culto comunitário: era também uma afirmação de identidade de grupo. Proporcionava aos devotos frequentadores da igreja de outros tempos uma sensação de pertença. O serviço religioso apinhado era um acontecimento com tanto de social como de teológico. Agora, com o seu declínio, bem como dos salões de dança públicos e dos cinemas, e com a ascensão desses grandes isoladores sociais - televisão e o computador -, o homem da cidade vê-se  cada vez mais privado de grandes reuniões comunitárias nas quais pode ver ser visto como parte de uma população local. De algum modo, o desafio de futebol sobreviveu a estas alterações e, agora, assume um papel mais importante enquanto forma de demonstração de fidelidade local" (p.33). Essa ligação umbilical ao "local", por parte do futebol, é ilustrada por Morris, de um modo para nós talvez surpreendente, com o acréscimo económico para cada comunidade em função do desempenho positivo do clube da terra, na medida em que isso gera uma motivação, uma sensação de bem estar, uma disposição dos trabalhadores que aí se reflecte claramente ("um impressionante testemunho disto mesmo é a descoberta de que o sucesso da equipa de futebol local aumenta, na realidade, a eficiência e a produtividade das fábricas próximas. O incremento de estatuto sentido pelos trabalhadores locais, que constituem o grosso dos adeptos futebolísticos, traduz-se num melhor ritmo de produção e numa economia local mais dinâmica", p.32). 
Porque é que, sintetizemos em definitivo, o futebol é importante e concita tanta atenção pelo mundo? Porque nos devolve ao primitivo estado de caçadores-recolectores em versão sofisticada, mas com suficiente adrenalina e aventura (o nosso código genético impele-nos a essa aproximação a uma actividade que concentra tantas características próximas dessa dimensão primordial para sermos como hoje somos); porque num mundo atomizado e sem pertença(s), o futebol, para muitos é espaço de religação; porque há uma liturgia, cânticos, cores e emoções que nos ligam aos outros, em especial aos outros "locais" ou da mesma cor (a tribo); porque há uma "cidadania local" que toca os resultados do clube da terra; porque nos empenhamos na encenação da batalha (mais um golo do que o adversário e vencemos aquela luta - e nisso nos entusiasmamos); porque há algo de representação teatral, também, no futebol - "grandes estrelas, desempenhos virtuosos, ocasiões de gala, clubes de fãs" (p.40). Eis como Desmond Morris explica o (sucesso do) futebol, quer dizer, o homem (que vê e pratica futebol).

Pedro Miranda

Acaba de ser reeditado e revisto (edição aumentada) o livro A tribo do futebol (Arte e Ciência, 2018), de Desmond Morris, com tradução de Francisco Silva Pereira e Prefácio de José Mourinho: "É por isso que dizem que o futebol é o desporto mais completo da história da humanidade. Há a emoção e a matemática, fundidas numa equação elegante. A tribo evolui como evolui o jogo. O futebol total deu lugar à totalidade do futebol - dentro e fora do campo. E quem não o percebe, não percebe nada. Quem só sabe de futebol não sabe nada de futebol. Quem só olha para o jogo como 22 homens atrás de uma bola não percebe a sua vertente geométrica, o seu bailado, a sua imensidão psicológica, a sua verdadeira natureza - a representação mais fiel da natureza humana nas suas variadas componentes: uma tribo onde a razão impera pela táctica e a emoção impera pela recreação" (p.10).

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