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Porque confiar na ciência?

  Porque devemos confiar na ciência? na resposta a esta questão, a autora, Naomi Oreskes, historiadora da ciência, socorre-se de algumas das teorias epistemológicas mais importantes do século XX para argumentar que o conhecimento científico é o mais fiável e confiável que a humanidade produziu até ao momento.  As características do conhecimento científico que o tornam fiável, são, segundo a autora e na linha do que defendia Kuhn, a natureza da ciência como empreendimento coletivo, por um lado, a dimensão empírica da realidade estudada, por outro e a objetividade resultante de práticas sociais de crítica e correção contínuas e sistemáticas. Este é um livro que interessa a professores e estudantes de filosofia do 11º ano, pela perspetiva que oferece sobre os empiristas, Popper, Quine, Kuhn e Feyerabend, mas também pelos exemplos de erros e manipulações na ciência - a indústria tabaqueira, os negacionistas das alterações climáticas - mostrando que não é uma atividade perfeita, se...

Povo Vs Democracia - A recensão de Pedro Miranda

  A cisão da democracia com o liberalismo 1.Já havia dedicado algum tempo, deste espaço de cidadania, a ilustrar como em um número crescente de países, da Europa à América Latina, passando pela Ásia (Hungria, Polónia, Turquia, Filipinas, Venezuela, EUA, Brasil…), se tem feito um caminho, consoante os casos, rumo a potenciais/com afloramentos de democracias iliberais , ou democraturas ou ditaduras eleitorais , consoante as fórmulas ou nomenclaturas preferidas por diferentes cientistas políticos para caracterizar uma realidade em que os cidadãos ainda vão às urnas, mas em que i) o poder judicial tende a ser capturado pelo partido de governo, ii) os media independentes são silenciados, iii) os direitos de minorias étnicas, religiosas ou sexuais são obliterados; iv) as instituições , dos institutos de estatística aos serviços secretos , sem independência ou autonomia. Desaparecidos os árbitros , o sistema de checks and balances ( freios e contrapesos ) fica em crise, a dit...

Regresso a Reims de Didier Eribon

A recensão de Pedro Miranda. 1.Pode ser maior a  vergonha social  - a vergonha das origens sociais, familiares, que a todo o custo se pretende ocultar - do que a  vergonha sexual  - a vergonha de uma  orientação sexual  minoritária, que se pretende esconder.  Didier Eribon  assume ter tido maior relutância/dificuldade em escrever sobre a primeira do que acerca da segunda. No agora professor universitário, convive a filiação em uma família pobre com a homossexualidade.  Regresso a Reims  (D.Quixote, 2019, tradução de  João Carlos Alvim ) é tanto uma auto-biografia que permite fazer uma sociologia, como, dir-se-ia, uma sociologia que pode ser instrumento de pacificação consigo próprio - muitas vezes, Eribon aponta o dedo a si mesmo, ao seu egoísmo (p.106), ao seu abandono da família, em especial - e com aqueles a quem  pertence  - um pai, cuja personalidade detestara passa, na sua reelaboração socioló...

A Sociedade do Cansaço - A recensão de Pedro Miranda

Excelente texto do nosso colega Pedro Miranda. Da sociedade do cansaço “ O lamento do indivíduo depressivo, «Nada é possível», somente pode manifestar-se no interior de uma sociedade que acredita que «Nada é impossível ” ( A sociedade do cansaço , p.31). A frase de Byung-Chul Han ilustra, na perfeição aquele é, no entender do filósofo de origem coreana e Professor de Filosofia em Karlsruhe, o traço predominante do nosso tempo, a Ocidente: a existência de uma sociedade do rendimento que outorga um terrível poder ao indivíduo: o de se potenciar até ao ilimitado (inculcando-lhe, precisamente, a ideia da inexistência de limite a que pode aceder), o de se (auto) explorar até ao tutano, o de conseguir sempre mais, melhor, o de ter sucesso e ser responsável, solitário responsável, por ele, carrasco e verdugo em um só, hiperactivo e neurótico (se aquém da exigência, melhor, dos resultados que a si coloca como objectivo). Uma sociedade do idêntico , da positividade , sem o pó...