quinta-feira, 14 de junho de 2018

Reflexão de Pedro Miranda sobre o Futebol


 Como o futebol explica o Homem





Fomos caçadores-recolectores e desenvolvemos estratégias, tácticas, conspirações para apanhar as presas. Era, literalmente, matar ou morrer. Também do ponto de vista genético, biológico tivemos que ganhar capacidades de corrida, força, resistência, cálculo e tanto mais. Um dia aprendemos a domesticar animais. Com a sociedade agrícola ficámos mais sedentários. A conversa e o treino mole não iam connosco, humanos preparados para o assalto final, adrenalina que havia que fazer jorrar, ansiedade e stress para colocar em campo, a aventura que havia que manter intacta: continuámos a caçar (mesmo com a emergência da Agricultura). Fomos progressiva, mas sucessiva e maciçamente para as cidades. A cultura urbana não se dá bem com as caçadas - que permaneceram em retiradas ao campo. Sobretudo, e com os romanos, as caçadas chegaram à cidade: o Coliseu, com 45 a 50 mil lugares, encheu no primeiro dia para ver 5 mil animais serem mortos. A tourada poderá ser vista como o grande sucessor moderno do Coliseu. Ou, quiçá, as largadas de Pamplona imitem melhor os tempos antigos - de Pamplona e de certas partes de Inglaterra ainda em 1820, diga-se. Os domadores de leões, do circo, podem ter ainda aí a sua génese. Mas a defesa, no séc.XIX, dos animais, veio para ficar e a caça primeva sofisticar-se-ia sob a forma futebolística. A guerra, outra metáfora, não responde ao que no futebol não é a aniquilação do inimigo, mas caça à baliza contrária. Quando se pergunta, antropologicamente, o que está em jogo com o futebol, a resposta de Desmond Morris é: está, antes de mais, o homem caçador recolector, os assistentes do Coliseu, moderninhos e por isso recolectores-caçadores frustrados, que apontam o arco e flecha à baliza adversária (num jogo onde as tais características de táctica, estratégia, pontaria, motivação, valentia, visão, força, resistência, perseguição, bem como a adrenalina, a aventura, a presença tribal estão aí). 
"O animal humano é uma espécie extraordinária. Entre todos os acontecimentos da história humana, aquele que atraiu a maior assistência não foi uma grande ocasião política, nem uma celebração especial de alguma proeza complexa nas artes ou ciências, mas sim um simples jogo de bola - uma partida de futebol. Calcula-se que mais de mil milhões de pessoas terá assistido a uma final do Campeonato do mundo quando esta foi transmitida na televisão global" (p.12). Ora, este facto gera, não raro, estupefacção, zanga, mau-humor, incompreensão. A ideia, sugere Desmond Morris, é estar mais atento ao futebol, isto é, perceber o que no futebol extravasa o futebol e diz muito (mais) sobre o Homem que o vê e/ou pratica; como no futebol percebemos o humano, de que forma aquele ajuda a explicar este. Não é um fenómeno guerreiro, mas é certo que o que podemos escutar durante um jogo entre os tiffosi ou os movimentos do marcador relevam, para muitos, de uma "batalha estilizada": "se o jogo de futebol fosse não mais do que uma caçada ritual, tudo o que interessaria a uma equipa e aos seus adeptos seria o número de golos (ou seja, matanças) marcados, independentemente do número conseguido pelo adversário. Mas, obviamente, não é este o caso. A diferença entre o número de golos marcados é que assume a maior importância, sendo muito melhor ganhar por 1-0 do que perder por 3-4. Como tal, ainda que a sequência do jogo e a sua «perseguição ritual de uma pseudopresa» se baseiem na analogia com a caça, o resultado final está, isso sim, relacionado com o simbolismo da batalha. Estas duas facetas [caça e batalha] encontram-se activas e contribuem para o entusiasmo sentido pelos espectadores" (p.29).  De resto, a doutrina divide-se entre os que pensam ser o futebol uma válvula de escape benigna, que canaliza e purga as tensões e frustrações da semana nos insultos a jogadores e árbitros ao fim de semana (um efeito catártico, que coloca em local seguro da cidade uma autêntica "bomba atómica" acumulada) e, diversamente, quem entende que nenhum efeito terapêutico há aqui, porque a ida ao futebol é um acumular de tensões, é um acréscimo de emoções negativas, a ansiedade e o medo da derrota a acrescentarem à zanga familiar ou às pressões do patrão na empresa. Ambos têm razão e os efeitos anulam-se mutuamente, entende o biólogo-etólogo (pp.30-31). 
Uma outra imagem para o beautiful game passa pela comparação religiosa: mesmo os hooligans, afinados nas canções, assemelhar-se-iam a meninos de coro. A liturgia de sons e coros da bancada, o «relvado sagrado" e o estádio «santuário» concertar-se-iam para indicar ou ratificar esta imagem (para além de magias e superstições com que muitos confundem o religioso - e que no futebol abundam). "Num aspecto importante, não podem restar dúvidas quanto à importância religiosa dos eventos futebolísticos. De um modo bastante real, e para uma grande parte da população, estes substituíram os serviços e festivais religiosos de outros tempos. À medida que as igrejas de muitos países ocidentais se foram esvaziando com o enfraquecimento da fé religiosa, as comunidades das grandes cidades perderam uma importante ocasião social. A reunião regular de grandes congregações nas manhãs de Domingo era mais do que uma questão de culto comunitário: era também uma afirmação de identidade de grupo. Proporcionava aos devotos frequentadores da igreja de outros tempos uma sensação de pertença. O serviço religioso apinhado era um acontecimento com tanto de social como de teológico. Agora, com o seu declínio, bem como dos salões de dança públicos e dos cinemas, e com a ascensão desses grandes isoladores sociais - televisão e o computador -, o homem da cidade vê-se  cada vez mais privado de grandes reuniões comunitárias nas quais pode ver ser visto como parte de uma população local. De algum modo, o desafio de futebol sobreviveu a estas alterações e, agora, assume um papel mais importante enquanto forma de demonstração de fidelidade local" (p.33). Essa ligação umbilical ao "local", por parte do futebol, é ilustrada por Morris, de um modo para nós talvez surpreendente, com o acréscimo económico para cada comunidade em função do desempenho positivo do clube da terra, na medida em que isso gera uma motivação, uma sensação de bem estar, uma disposição dos trabalhadores que aí se reflecte claramente ("um impressionante testemunho disto mesmo é a descoberta de que o sucesso da equipa de futebol local aumenta, na realidade, a eficiência e a produtividade das fábricas próximas. O incremento de estatuto sentido pelos trabalhadores locais, que constituem o grosso dos adeptos futebolísticos, traduz-se num melhor ritmo de produção e numa economia local mais dinâmica", p.32). 
Porque é que, sintetizemos em definitivo, o futebol é importante e concita tanta atenção pelo mundo? Porque nos devolve ao primitivo estado de caçadores-recolectores em versão sofisticada, mas com suficiente adrenalina e aventura (o nosso código genético impele-nos a essa aproximação a uma actividade que concentra tantas características próximas dessa dimensão primordial para sermos como hoje somos); porque num mundo atomizado e sem pertença(s), o futebol, para muitos é espaço de religação; porque há uma liturgia, cânticos, cores e emoções que nos ligam aos outros, em especial aos outros "locais" ou da mesma cor (a tribo); porque há uma "cidadania local" que toca os resultados do clube da terra; porque nos empenhamos na encenação da batalha (mais um golo do que o adversário e vencemos aquela luta - e nisso nos entusiasmamos); porque há algo de representação teatral, também, no futebol - "grandes estrelas, desempenhos virtuosos, ocasiões de gala, clubes de fãs" (p.40). Eis como Desmond Morris explica o (sucesso do) futebol, quer dizer, o homem (que vê e pratica futebol).

Pedro Miranda

Acaba de ser reeditado e revisto (edição aumentada) o livro A tribo do futebol (Arte e Ciência, 2018), de Desmond Morris, com tradução de Francisco Silva Pereira e Prefácio de José Mourinho: "É por isso que dizem que o futebol é o desporto mais completo da história da humanidade. Há a emoção e a matemática, fundidas numa equação elegante. A tribo evolui como evolui o jogo. O futebol total deu lugar à totalidade do futebol - dentro e fora do campo. E quem não o percebe, não percebe nada. Quem só sabe de futebol não sabe nada de futebol. Quem só olha para o jogo como 22 homens atrás de uma bola não percebe a sua vertente geométrica, o seu bailado, a sua imensidão psicológica, a sua verdadeira natureza - a representação mais fiel da natureza humana nas suas variadas componentes: uma tribo onde a razão impera pela táctica e a emoção impera pela recreação" (p.10).

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