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À conversa com Josep Maria Esquirol

 Por uma filosofia da proximidade, uma charla com Josep Maria Esquirol, prémio Nacional de Ensaio em Espanha, a propósito do livro “Resistência Íntima” – ou como habitar o mundo com uma vida desejavelmente mais intensa, nuclear, expandida. 


A filosofia não consiste, exclusivamente, em um exercício académico, curado por especialistas que esculpem ou depuram conceitos, por entre uma treinada capacidade especulativa e técnica: é, sobretudo, como os antigos sabiam, o cuidado com a alma, que é cuidado de si e do próximo. Há uma filosofia da proximidade que se esboça no casar (juntar, entrelaçar) que torna - dá origem etimológica e existencial - a casa, reduto, bem compreendido, mais anímico do que arquitectónico – há casas tão cálidas onde se sente, de imediato, o regaço a receber-nos e uma indómita vontade de nelas permanecer (talvez independentemente do tamanho da sala ou dos miasmas tecnológicos dos ocupas pandémicos que a invadem). E da casa ao trabalho: neste, há que inscrever-nos em tarefas intensas, capazes de nos dilatar (de nos expandir, de nos fazer gostar ainda mais da vida); a nós, enquanto pessoas individualmente consideradas, mas, também, e não menos relevante, a nós co-criadores de um cosmos – ordem, harmonia – cuja beleza importa tomar a cargo. O trabalho, idealmente e em tantos casos, dá (humano) sentido (e que lástima quando decai em alienação), não é apenas uma questão económica. E, se a dimensão do sentido, com maiúsculas, é, para alguns, tida por excessiva, que pelo menos se divisem os sentidos que se podem haurir do mundo (em uma tessitura cuja pauta se singulariza e que cada um vai, também, cerzindo, sem guião de tamanho único): como o de uma boa conversa – que maravilha é sermos perguntados: “como estás?”, porque significa alguma preocupação connosco, reconhecimento, torna-nos próximos -, por oposição a um mundo em que a homogeneidade, a mesmidade, o universo-plano e ilimitado da tecnologia (estendida a todos os domínios) tende a tornar a riqueza de uma ampla paleta existencial infinitamente mais reduzida, redutora, monocromática, totalitária até. Em uma boa conversa, ainda que connosco mesmos, necessitamos de palavras mediadoras (do pensamento e do diálogo). E é preciso recuperar as menos abstractas, as mais cálidas, as mais próximas, aquelas que penduramos ao pescoço como um terço, contas de um rosário, corrimão de uma vida em que o Céu é horizonte de conforto se (e só se) não desligado da Terra - mas sem com esta se confundir. Junção sem confusão: sabemos para onde olhar e o teto com que somos cumulados.

A Josep Maria Esquirol não escapa um nome (de um seu interlocutor). Paula, Teresa, Pedro, aconchega-nos. Talvez não por acaso, o único filósofo que traz à conversa, durante as reflexões com que nos presenteia, o regalo que habita e que não é sinónimo de actualidade, porque esta, paradoxalmente, o torna sem-abrigo - é Emanuel Levinas, o homem que sabia que em cada rosto há uma inscrição – não matarás – que me obriga a atentar na indeclinável dignidade de cada pessoa, e que erigiu a responsabilidade pelo outro em um mandamento sem apelo (a responsabilidade do outro por mim é problema dele). Na Escola Secundária de S.Pedro, mais de sete dezenas de atentos ouvintes – alunos, professores, uma audiência que fez escala em três continentes, Europa-América do Sul e África –, na manhã de 23 de Novembro, ficaram acometidos de prosseguirem o cultivo desse horto íntimo e de resistirem, com tão bom mestre e tão exemplar exercício espiritual, à tempestade que em momentos, como o atual, sempre espreitará as suas existências.

Pedro Miranda




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