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Li e recomendo "Sem fins lucrativos" de Martha Nussbaum




Martha Nussbaum, em SEM FINS LUCRATIVOS porque precisa a democracia das humanidades, publicado em Portugal em julho de 2019 pela Bertrand, defende a tese de que a Democracia está em perigo em consequência do declínio do estudo das Humanidades, das Artes e do uso pedagógico do questionamento socrático.

Propõe uma educação, na esteira de pensadores como John Dewey, Pestalozzi, Montessori e Tagore, focada no desenvolvimento de competências de pensamento crítico que a autora associa às Artes e Humanidades. O ensino das humanidades, com turmas pequenas, debates participados na sala de aula e feedback a partir de trabalhos escritos é o contexto adequado para a aprendizagem da resolução de problemas, transcendendo as lealdades locais, como cidadãos do mundo num exercício de liberdade compassivo com os problemas dos outros. De uma escola como local onde se ouve e se absorve, para uma escola onde se analisa, se examina e se resolvem problemas. Propostas muito próximas de R. Ennis e P. Faccione, duas das mais relevantes referências no domínio do pensamento crítico.

No entanto, o pensamento crítico, sendo necessário, não é suficiente. O desenvolvimento emocional, o jogo e a imaginação artística, na esteira de Lipman, concorrem para a construção de cidadãos ativos, críticos, curiosos, capazes de resistir à autoridade e à pressão do grupo. 

Segundo a autora, só o retomar dos valores socráticos numa educação em que o jogo, o debate, a aprendizagem da cidadania através de projetos comuns ancorados em problemas reais, a argumentação e não a retórica vazia, podem contribuir para a participação informada nas decisões políticas e culturais  de cidadãos de corpo inteiro e não apenas papagaios em gaiolas douradas. 

Transcrevo a célebre alegoria do treino do papagaio:

"Um Rajá tem um bonito papagaio, e, convencido de que precisa de ser educado, convocou à sua presença eruditos de todo o império. Eles argumentam incessantemente sobre a metodologia e especialmente sobre os livros didáticos. “Livros didáticos nunca podem ser demais para o nosso propósito!”, diziam. O pássaro fica hospedado num prédio escolar bonito: uma gaiola dourada. Os sábios professores mostram ao Rajá o método impressionante de instrução que eles criaram. “O método era tão excelente, que, em comparação, o pássaro apareceu ridiculamente insignificante.” E assim, “com o livro de texto numa mão e o bastão na outra, os pundits [professores especialistas]deram ao pobre pássaro o que apropriadamente se pode chamar lições”. Um dia o pássaro morre. Ninguém se deu conta durante algum tempo. Os sobrinhos do Rajá vêm dar conta da ocorrência: Os sobrinhos disseram: “Senhor, a educação da ave está concluída.” “Será que ele sabe dar saltos?”, perguntou o Rajá. “Nunca!” disseram os sobrinhos. “Será que sabe voar?” “Não.” “Traga-me o pássaro”, disse o Rajá. Trouxeram-lhe o pássaro … O Rajá apertava ligeiramente com os dedos o seu corpo. Apenas se ouvia como as folhas dos livros sussurravam no seu interior. Fora da janela, o murmúrio da brisa da primavera entre as folhas recém-enxertadas da asoka tornou esta manhã de abril melancólica" (pp117-118)
Teresa Morais
Disponível na Biblioteca

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