sábado, 28 de abril de 2018

Palestra sobre a Eutanásia


José João Eira, médico internista no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), veio à Escola de S.Pedro falar sobre a eutanásia. Estiveram presentes os alunos do 10.º TGEI, do 10.º G e do 9.º ano. Atividade organizada pelo Pedro Miranda que nos oferece também o texto introdutório.






A dignidade não desaparece com a doença, e a morte não vai conferir dignidade à pessoa”
O voluntarismo legiferante do poder político imiscuiu-se num santuário sagrado que o internista, diariamente antecipando, no espelho do rosto do outro, o que será, entende dever fechado à dogmática (jurídica): que é isso do “sofrimento inultrapassável”, que trespassa tanto o jovem cuja relação apaixonada declinou, quanto o doente oncológico caminhando para uma irreversibilidade dorida, como se mede, cinde (?) e (des)qualifica a dor física e psicológica, afinal “há uma escala de 0 a 10 para a dor de cabeça”, dor essa, “a mesma”, que a Renata dirá rondar o 9 e o Pedro apenas o 5? Numa palavra, como sondar, sindicar, como aquilatar e tornar “técnica” a concretização de um conceito indeterminado como “sofrimento inultrapassável” que os projectos de lei que visam despenalizar a prática da eutanásia, em Portugal, colocam como quesito a cumprir? Assim, com uma “provocação”, principiou José João Eira a conversa com os alunos do Secundário e, posteriormente, do 9º ano acerca da delicada questão do suicídio assistido.
O médico assegurou que “não há sofrimentos intratáveis” – e “eu também tenho medo de sofrer” - e que permitir a eutanásia implicaria ir contra, ou necessariamente alterar, um juramento de Hipócrates com que todos os médicos se comprometeram. Em realidade, “a morte faz parte da vida” e a retoma desta ao nosso horizonte cultural – do qual foi apagada - poderia ser determinante para que cada um fosse tudo, e todo, em cada instante. Lidar, diariamente, com a morte (“todos vamos morrer, não sei se já deram conta…”, reforçou, ironizando), como acontece a este profissional, fez com que passasse a ter “maior tolerância com os outros” e percebesse como é a solidão – “hoje os hospitais estão cheios de velhinhos deixados pelas famílias” – que gera a angústia ou o desespero aptos a progredirem para pedidos eivados de um grito que tantos se recusaram a evitar. Sim, confessa o médico: “já me pediram a eutanásia”.
A rede de cuidados paliativos do distrito de Vila Real, situada em Vila Pouca de Aguiar, dispõe apenas de 12 camas. Ao Estado fica bem mais caro alargar substantivamente esta rede do que promover a alteração legislativa em discussão, o mesmo é dizer que até razões economicistas aqui poderiam, por absurdo, ser trazidas à liça. Não, ninguém é dispensável, não pode haver descartáveis: mesmo depois de passar o período de vida activa, mesmo depois de cada um deixar de ser produtivo (economicamente), cada pessoa é necessária: “todos nós prestamos para alguma coisa. Aquele velhinho, mesmo acamado, faz falta a alguém”.
A turma do 9º ano trazia muita curiosidade e perguntas a colocar; preparou-se, fez, rigorosamente, o trabalho de casa e, por entre as boas perguntas da Catarina Monteiro, da Vânia Leitão, da Joana Ramos, da Carolina Soares ou do Gabriel Morais, o António Reis, que nas aulas se pronunciara contra a eutanásia, porque uma cura, uma descoberta científica de última hora pode salvar uma vida que se julgara fatalmente perdida – assim se indagando, no fundo, da absoluta certeza/fiabilidade de cada diagnóstico e prognóstico médicos – interrogava agora acerca do sofrimento dos doentes com Alzheimer, aqueles que pela perda da memória deixariam de ser quem eram, perdendo o sentido de unidade (o “eu”) que haviam transportado décadas a fio (assim, retomando o aluno, o questionamento do heterodoxo – em matéria de eutanásia - teólogo católico Hans Kung): “sofrem mais as pessoas que lidam com doentes com Alzheimer do que os doentes: estes, desde que os vistam, lavem, lhes dêem de comer têm o seu conforto. É quem imagina como será estar naquela posição, supondo mais do que sabendo, que mais sofrerá”, assegurou o profissional de saúde.
O médico não é a figura impenetrável e imbatida, um deus ex machina que alguns podem supor: no exercício de transmissão de uma experiência, essa única e irrepetível que toca o mistério mais denso do outro pelo qual sou responsável, há um lugar, singular e definitivo, a tarde suspensa por instantes, para o morto “que me pesa”, aquele a quem faltou dar “uma maior dose de morfina”, porque assim “acalmaria” mais intensamente o seu sofrimento, e mesmo “a mão” não amparou, dessa vez, como devia, e como sucedeu em tantas situações subsequentes – “o toque é fundamental” – o homem que sucumbiria horas depois.
Num relato genuíno e convicto – evidentemente, não apenas longe de poder esgotar todas as questões que confinam com a eutanásia, bem como de representar, por completo, a imensa pluralidade de posicionamentos que há, na comunidade médica e na sociedade portuguesa, sobre o delicadíssimo tema -, José João Eira teve duas plateias interessadas em procurar abeirar-se com maior profundidade desta questão candente que trazemos connosco e que o país discute crescentemente por estes dias.

Pedro Miranda


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