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Conferência - Francisca Bravo - Ética e Ciência: tensões e complementaridades na criação de uma vacina para a Covid-19

 Investigadora especialista em doenças neurodegenerativas, com experiência profissional na indústria farmacêutica, Francisca Bravo, em conferência para a Escola Secundária de S. Pedro na manhã de quinta-feira, 3 de Dezembro, deixou uma mensagem de serenidade e confiança quanto às vacinas para a covid-19: 

“Nenhuma outra indústria, com exceção da aeronáutica, é tão regulada como a indústria farmacêutica”
As inúmeras questões levantadas pelos alunos, a que se somaram os apontamentos de diferentes professores, bem como o substancial prolongamento do tempo previsto para a Conferência “Ética e Ciência: tensões e complementaridades na criação de uma vacina para a covid-19” ilustram, exemplarmente, o interesse convocado à sessão pela qualidade pedagógica da exposição de Francisca Bravo, Investigadora com Doutoramento na área da doença de Alzheimer, Mestre em Ciências Farmacêuticas e com experiência profissional em âmbito de Indústria Farmacêutica.
Principiando, em permanente interação com o seu auditório, pelo detalhar das diferenças existentes entre “vírus” e “bactérias”, a cientista exploraria, de seguida, a distinção entre “imunidade inata” e “imunidade adaptativa” no humano, como respostas a agentes patógenos em âmbito de explanação do processo de criação de vacinas. No momento seguinte da sessão, a explicação do que são “coronavírus”, do momento em que, pela primeira vez, foram identificados (1960), os animais em que se abrigam (aves, morcegos, pequenos mamíferos), haveria de surgir, simultaneamente, com a revisão da literatura da especialidade: em um recente número, a “Nature” explicava que, com grande probabilidade, “teria sido um pangolim” a transmitir ao humano o SarsCov-2, descartando a hipótese (conspirativa) de uma criação em laboratório.
Se é certo que a humanidade convive, em permanência, ao longo da sua história, com vírus e pandemias, em realidade a Covid-19 é “um dos seis maiores problemas de saúde pública já registrados - e precisamos de aprender a lidar com eles e combate-los”, observa a especialista em distúrbios neurológicos, aduzindo, de imediato, os modos como as vacinas são desenvolvidas – com o vírus ou parte do vírus; com recurso a DNA ou RNA; com partículas semelhantes ao vírus, criadas por engenharia genética; isto é, pretende-se a fabricação de anticorpos e ativação de uma memória imunológica. Dos estudos pré-clínicos com animais, passando pela Fase 1 – 10 a 100 pessoas testadas -, Fase 2 – centenas de indivíduos testados – e Fase 3 – milhares de indivíduos testados -, em revelando a sua eficiência/eficácia, a vacina em criação verá a sua produção ser autorizada pelas entidades reguladoras (para comercialização). Note-se que, face à Covid-19, “diferentes tipos de vacinas podem ser necessários para diferentes grupos populacionais. Por exemplo, algumas vacinas podem funcionar em pessoas idosas e outras não, dado que o sistema imunológico pode enfraquecer com a idade”.
No contrarrelógio em que nos vimos necessitados, ou que reclamamos, com vista à obtenção de uma vacina que, pelo menos, mitigue a pandemia em curso, aceleraram-se procedimentos. Tal consistiu, nomeadamente, em realizar em paralelo etapas (fases até se alcançar a vacina pretendida), como as vindas de descrever, que, tradicionalmente, ocorreriam em momentos separados. Fundamental, neste contexto, é observar que “todos os mecanismos usuais de monitorização de segurança e eficácia” foram, ainda assim, cumpridos. Dito isto, a oradora indicou a fase em que se encontram as vacinas (em gestação) mais avançadas e, bem assim, registou os seus patrocinadores e instituições participantes.
Do ponto de vista ético, interrogações como “quem recrutar para a investigação” (?) – “voluntários saudáveis” (?), “pessoas que estão em fase terminal devido à doença para quem a vacina pode ser a última esperança” (?), “cidadãos doentes que não estejam em risco de vida” (?) -, de que forma “os potenciais benefícios para a pessoa prevalecem sobre os riscos de participar na experimentação”(?) ou quais os modos de “garantir a evidência científica suficientemente robusta que permita a sua aprovação”(?) colocam-se, de modo agudo, aos cientistas (e comissões éticas que os acompanham – para além de todo o desejável debate societário, devidamente fundamentado). E, após o final de qualquer ensaio clínico, continuam a não ser de fácil resolução as indagações acometidas (em particular aos responsáveis): “quem priorizar para a vacinação?”, “como garantir a equidade no acesso à vacina?”, “a vacinação deve ser opcional ou obrigatória?”. Entre os dilemas éticos a considerar detidamente não pode deixar de relevar-se, nesta hora, o seguinte: “será razoável contagiar os participantes dos ensaios clínicos com uma doença para a qual não existe um tratamento estabelecido?”.
Princípios éticos como os da “Autonomia”, “Beneficência e não Maleficência”, “Justiça”, “Responsabilidade” não são fórmulas matemáticas, distantes das pessoas e das suas realidades complexas, antes carecendo de um rigoroso estudo na sua concreta aplicação, em especial em “contextos novos, desafiadores e exigentes” (como o atual).
Em uma conferência que contou, também, com a presença do Grupo de Pensamento Crítico da UTAD (para lá de mais de 80 alunos e professores da Escola de S.Pedro), a investigadora Francisca Bravo enalteceria o modo como a comunidade internacional foi capaz de juntar esforços no combate à Covid-19, sublinhando que, só desse modo, foi possível obter resultados (máxime, ao nível da criação de vacinas e desenvolvimento de processos de vacinação), com a celeridade a que estamos a assistir, fazendo, igualmente, notar o quanto beneficiamos, cidadãos portugueses, ainda neste âmbito, da participação na União Europeia (que garantiu, de imediato, vacinação para aquele espaço geopolítico e, por consequência, para o Estado-nação português) e concluiria, face a algum ceticismo que possa existir acerca das vacinas, que “nenhuma outra indústria é tão regulada, com a exceção da aeronáutica, como a indústria farmacêutica” (sendo que, no nível europeu de regulação, essa formulação é estrita não sendo, por exemplo, possível, ao invés do que se verifica no caso norte-americano, depararmo-nos com outdoors a solicitar voluntários para experimentos desta natureza).
Pedro Miranda




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